Angustia e Paz

CAPÍTULO 12
A Psicologia da Conversão

À medida que se sobe na hierarquia da natureza, descobre-se uma crescente capacidade de adaptação. H2O é capaz de assumir as três formas de gelo, água e vapor. As plantas têm adaptabilidade apenas às estações e às condições locais. Os animais possuem poderes adicionais de mover-se dum lugar para outro, mas cada um deles permanece ainda mais ou menos fixo no tipo. O homem tem a maior capacidade de mutação entre todos, porque ele, que nasceu da carne, pode ter também nascido do espírito; ele, que é apenas uma criatura, pode tornar-se um filho de Deus. Só o homem é conversível. Só ele pode tornar-se alguma coisa que não é, quando se tem a potência para realizar o ato. A conversão não significa um desenvolvimento ulterior na ordem natural, mas uma geração dentro duma ordem sobrenatural. O corpo é vivo por causa da alma, mas a alma está morta quando não tem aquela vida mais alta que só Deus pode dar. “Não pode ver o reino de Deus senão aquele que renascer de novo”. (João 3,3)

Do mesmo modo que as plantas e os animais morrem, quando estão fora de contato com o seu próprio meio, assim também morrem as almas se deixam de viver em união com Deus. A grande lástima da vida é que tantos espíritos deixem de travar conhecimento com o todo do seu ambiente. Alguns há que podem gozar o ladrido dum saxofone, mas não apreciam uma sinfonia de Vivaldi. Outros há que descobrem o mundo da ciência, mas não têm telescópios mentais bastante fortes para descobrir o mundo da poesia. Há homens satisfeitos com conquistar um mundo de negócios, sem o desejo de conquistar o mundo da filosofia. Há muitos que entram em contado com o mundo de crédito, mas deixam de entrar em contato com o mundo da fé. Tais espíritos contentam-se em conhecer uma parte de seu ambiente e não o todo. São muito semelhantes aos surdos, mortos para o grande ambiente do som, para a risada das crianças, a voz dum amigo, o canto dum pássaro, a doce fluência da poesia, a vibração da música, o suspiro dos ventos e a tristeza de uma cascata. Embora o som e a harmonia constituam um dos maiores prazeres deste mundo, conhece o surdo este reino do som como um vasto e desconhecido domínio. E os cegos são mortos para o grande ambiente da beleza - para o gesto de um amigo, para o reluzir dum olhar, para a gravidade dum rosto, para a beleza de um arco-íris, para o cintilar duma estrela e a queda dum meteoro. A beleza visual é uma das fontes de prazeres deste mundo, mas há alguns tão mortos para ela, como se nunca tivessem nascido.

Bem acima do mundo dos sons e das coisas visíveis, bem acima mesmo do mundo da ciência e filosofia, há aquele ainda maior ambiente de vida, a verdade, o amor e a beleza de Deus, que só Ele pode satisfazer as aspirações infinitas do homem. Um dos tristes e lamentáveis aspectos de hoje é o facto de que há muitas pessoas neste mundo que estão mortas, não só para o mundo da poesia, da música, da filosofia, mas para a vida e o amor de Deus. Formam uma classe que podemos chamar de “cegos à divindade”. Tais homens são muitas vezes vivos para o ambiente temporal: as suas palavras são corretas; o seu senso do decoro mostra-se no embelezamento das suas casas e na escolha das suas diversões. São mundanos; são ricos; são sofisticados; são bem sucedidos; vivem folgadamente; são cumulados de honras; têm olhos mas são cegos - cegos ao belo ambiente de Deus e da vida de encarnação de Cristo.

Mas ninguém se acha em paz enquanto não se encontra numa devida relação com a Divindade. A aquisição desta poderia chamar-se “ Deo-versão”, ou uma volta para Deus. Esta espécie de conversão significa uma substituição da consciência do ego pela consciência de Cristo, uma transformação da personalidade por meio do amor de Deus em Cristo; uma submissão da vontade de modo a obedecer a Cristo acima de todas as coisas e de todo o custo. A verdadeira conversão nada tem que ver com a “elevação” emocional, ou com uma aparência moral de ação social. É um duro jogo, uma árdua batalha, um trabalho da alma do qual emerge uma nova dedicação do eu. O Espírito de Cristo deve tornar-se a alma do nosso pensar, a visão de Cristo os olhos do nosso ver, a verdade de Cristo, deve estar na nossa boca para falar e o amor de Cristo nos nossos corações para amar.

Teremos de limitar-nos aqui a discutir a psicologia da conversão, a descrever os antecedentes da conversão, como se manifestam na alma. Geralmente são de duplo caráter: um senso de conflito ou crise e um forte desejo de estar unido a Deus.

Toda a conversão parte de uma crise, de um momento ou de uma situação que envolve alguma espécie de sofrimento, físico, moral ou espiritual; de uma dialética, uma tensão, um impulso, uma dualidade ou um conflito. A crise é seguida, de um lado, por uma profunda sensação do próprio desamparo e de outro por uma convicção igualmente certa de que só Deus pode suprir o indivíduo daquilo que lhe falta. Se houvesse apenas um senso de desamparo, haveria desespero, pessimismo e suicídio eventual. É esta, na verdade, a condição do pagão post-cristão. Sente a inadequação total dos seus próprios recursos íntimos contra as opressivas superioridades num universo cruel e assim cai em desespero. Tem a metade da condição necessária para a conversão, isto é, um senso de crise - mas deixa de ligar a sua falta de energia à Divina Energia, que sustenta e nutre a alma. Mas quando isto é feito, o paganismo desaparece e dá lugar ao que poderia ser chamado de desespero criador; “criador”, porque se sabe que somente um Médico Divino, vindo de fora, pode trazer a cura aos males. Este desespero não surge geralmente do senso de estupidez própria, da ignorância ou do engano, mas resulta da inadequação, do senso de dependência, ou mesmo da admissão da culpa que se sente. A alma torna-se o campo de batalha duma guerra civil durante a conversão. Não basta que haja um conflito entre consciência e inconsciência, ou ego e o ambiente, pois tais tensões podem ser simples fenómenos psicológicos sem significação profunda para a alma. Enquanto o conflito é apenas psicológico, enquanto é capaz de ser manipulado pelo próprio espírito ou por outro espírito humano, pode resultar uma integração ou sublimação, ou chamada “paz de espírito”, mas não há “Deo-versão”, ou paz da alma. A tensão ou conflito nunca é bastante aguda quando as forças em duelo estão contidas dentro do próprio espírito; a conversão não é auto-sugestão, mas um raio de luz de fora. Há uma grande tensão apenas quando o eu é confrontado com o não-eu, quando o interior é desafiado pelo exterior, quando o desamparo do ego é confrontado com a adequação do Divino.

Só quando a luta decisiva começa, com a alma de um lado e Deus no outro, é que a verdadeira dualidade aparece como condição da conversão. Esta crise na alma é a miniatura e o camafeu da grande crise histórica da cidade de Deus e da cidade do homem. Deve haver na alma a convicção de que se está em poder e sob a influência dum governo mais elevado do que o da nossa própria vontade. Que, em oposição, ao ego, existe uma presença diante da qual a gente estremece por ter praticado o mal. É relativamente sem importância que esta em crise, resultante num sentimento de dualidade, seja súbita ou gradual. O que importa é a luta entre a alma e Deus, com o Deus omnipotente nunca destruindo a liberdade humana. É este o maior drama da existência.

Tal tensão entre Deus e a alma é claramente vista na conversão de S. Paulo, quando o Cristo glorioso lhe apareceu, com o desafio: “Por que me persegues?” (Atos 22, 7) Nas almas modernas, esta tensão aparece como uma angústia, não de ordem psicológica, mas metafísica, dentro da qual a alma vive, como disse Pierre Rousselot, “no parafuso da inquietação”. Em outras gerações, o espírito teve problemas; o espírito de hoje é um problema. O mistério descolocou-se do universo para a alma, do universal para o particular. Talvez seja esta a razão pela qual romancistas e poetas, frequentemente mais do que os filósofos, são agora aceitos como guias pelo espírito frustrado. Mas não há falta de filósofos modernos que tentam analisar esta tensão duma maneira abstrata. Alguns deles descrevem a alma em angústia sobre a sua própria contingência, tremendo de medo à vista da sua nulidade e no momento seguinte, olhando para diante numa doce nostalgia do infinito. Outros, sentindo uma emoção ética nesta busca, lutam por encontrar o absoluto, um Amigo da Equidade donde toda a justiça terrena derive. Outros, como Kirkegaard, analisando o desespero, declaram que seria impossível para o homem não ter a intuição do eterno. “Aquele eu que ele desesperadamente deseja ser, é um eu que ele não é; o que ele realmente quer (em desespero) é desprender-se do Poder que o constituiu”. Outros estudam a tensão em termos de satisfação finita e de anseio infinito, de desapontamento com o que se tem e de desejo veemente pelo que não se tem, com um vago conhecimento de que não desejaríamos o infinito se não fossemos feitos para ele ou se não tivéssemos vindo dele. Mas a inquietação resulta, quando o desejo de Deus é enjaulado numa restrita forma mortal e esta intranquilidade impele o homem a uma renovada paixão pela transcendência, pela luz e pelo poder. Pascal descreve-a desta forma: “O meu espirito está inquieto. Estar inquieto é melhor. Descrição do homem: dependência, desejo de independência, necessidade. Condição do homem: inconsciência, aborrecimento, intranquilidade”.

Juntamente com a luta está a impressão de que se é procurado por Alguém - pelo “Galgo do Céu” na linguagem de Thompson - que não nos deixará sozinho. A estratégia é que muitas almas, sentindo esta ansiedade, buscam tê-la explicada, em vez de segui-la até onde, no fim da trilha, é vista como Deus e a graça atual agindo sobre a alma. A voz de Deus causa descontentamento dentro da alma, a fim de que a alma possa procurar mais além e ser salva. Embaraça a alma, pois mostra-nos a verdade, rasga todas as máscaras e mascaradas da hipocrisia. Mas consola também a alma, efetuando uma harmonia consigo mesma, com o próximo e com Deus. Cabe ao homem decidir: aceitar ou rejeitar a voz que ouve. Santo Agostinho conta como, depois de ouvir a história de uma conversão, deu ele as costas a uma graça atual.

“Tal foi a história de Ponciano; mas tu, ó Senhor, enquanto ele estava falando, fizeste-me voltar para mim mesmo, tirando-me de trás das minhas costas onde eu me havia colocado, não querendo observar-me a mim mesmo; e colocando-me diante de meu rosto para que eu pudesse ver quão asqueroso eu era, quão perverso e corrompido, quão manchado e ulcerado. E eu contemplei-me e fiquei horrorizado; e para onde escapar de mim mesmo não descobri. E se eu buscava desviar os meus olhos de mim mesmo, continuavam eles a ver, e Tu de novo me colocaste contra mim mesmo e me lançaste diante dos meus olhos para que eu pudesse descobrir a minha iniquidade e odiá-la. Eu tinha-a conhecido, mas fiz como se não a visse, fiz sinal para ela e esqueci-a.”

Nesta crise, tem cada um a consciência de que se tornou um palco sobre o qual duas grandes forças estão travando guerra; a nossa própria alma está com uma força num momento e com a outra força no momento seguinte. Há um murmúrio que nos solicita para os picos da montanha e outra voz que nos ordena que desçamos para os vales. Há um temor do que possa haver à frente no futuro e um temor de continuar como no presente. O espírito reclama a renúncia de velhos hábitos, mas a carne reluta em quebrar as cadeias. Uma vez que estas duas correntes de frustração interior e de Misericórdia se encontrem, de modo que a alma se certifique de que somente Deus pode prover aquilo que falta, então a crise atinge um ponto em que se deve tomar uma decisão. Neste sentido, a crise é crucial – implica uma cruz. A própria crise pode tomar mil formas diferentes, variando de almas que são boas para as que são pecadoras. Mas, em ambos estes extremos, há um reconhecimento comum de que os conflitos e frustações não podem ser dominados pela nossa própria energia. As formas comuns de crises são a moral, a espiritual e a física.

A crise é moral quando há uma certeza de pecado e de culpa, existindo não somente como um fenómeno histórico, que afeta a vida social e internacional, mas como algo interiormente experimentado como uma relação partida. Aqueles que sustentam a opinião que que a única culpa é a admissão da culpa e de que o único pecado é a crença no pecado, tornam-se incapazes de conversão. Desde que nada reconhecem no seu universo a não ser o seu ego, então não podem admitir um Poder exterior do qual a experiência salvadora virá. Não pode haver crise enquanto a alma pensa em si mesma como perturbada pelo facto de ter violada alguma lei cósmica, ou porque está fora de tom com o universo. Uma crise exige duas pessoas – a pessoa do homem e a Pessoa de Deus. Então o remorso dos seus pecados tortura a alma e fá-la ansiar por uma paz que não pode obter por si mesma. Assim, graças a um paradoxo peculiar, o pecado torna-se ocasião de uma solidão e de um vazio que somente Deus pode remediar. Este vazio não é o de um poço sem fundo; é o vazio de um ninho que só pode ser enchido pela Águia que descerá das alturas lá de cima. Uma alma em tal crise busca Deus depois de uma série de desgostos quando, como o pródigo, se afasta das alfarrobas para o Pão da Vida. Tal crise implica tristeza, porque se decaiu do ideal, mas está misturada com esperança, porque o padrão original pode ser recuperado.

Até este ponto, a alma tem trazido cobertos os seus pecados; agora descobre-os a fim de os repudiar. O que é confessado pode ser renegado; o que é percebido como um obstáculo pode agora ser ultrapassado. A crise atinge o seu ápice quando a alma se torna menos interessada em suscitar revoluções externas e mais interessada na revolução interna do seu próprio espírito; quando ela usa espadas, não fora, mas dentro, para cortar as suas paixões mais baixas; quando se queixa menos da mentira do mundo e começa a trabalhar por tornar-se algo menos mentiroso do que antes. A esfera moral tem dois polos éticos: um, o censo imanente do mal ou da falha; o outro, o poder transcendente da Misericórdia de Deus. O abismo da importância grita para o abismo da salvação, pois copiosa apud eum redemptio. A cruz é agora vista a uma nova luz. Em dado momento indica a profundidade da iniquidade humana que, em essência, assassinaria Deus; noutro momento, revela a derrota do mal no seu momento mais forte, vencido não somente pelas súplicas de perdão da Cruz, mas pelo triunfo da Ressurreição. Mas esta cascata de Energia Divina não pode operar sobre um homem, enquanto ele vive debaixo da ilusão de que é um anjo ou de que o pecado não é culpa sua. Deve ele admitir em primeiro lugar o facto da culpa sua. Deve ele admitir em primeiro lugar o facto da culpa pessoal; depois, embora a consciência de ter sido um pecador não desapareça, a consciência de estar em condição de pecado é aliviada. Esta é provavelmente a experiência a que Charles Péguy se referiu, quando disse: “Sou um pecador, um bom pecador”.

Deus torna-se uma possibilidade para a alma desesperada somente quando começa a ver que pode fazer “todas as coisas n'Ele que me deu forças”. O homem naturalmente bom de Rousseau e do liberalismo, o egoísta inofensivo de Adam Smith e o homem prudentemente soberbo de John Stuart Mill não sentem estas tensões mortais, particularmente quando as suas vidas estão almofadas em conforto. Foi preciso um século para que os seguidores desses falsos otimistas sentissem que a sua vacuidade interior resulta de uma liberdade que anseia pelo infinito, subjugada a uma finitude cuja essência é o desgosto. Um novo eu é necessário e o homem não pode renovar-se. Nenhum humanismo vago, nenhuma dedicação atarefada às causas sociais, pode desarraigar o sentido de culpa, porque a culpa implica uma relação pessoal com Deus. E uma relação pessoal implica amor. Para que nós nos tornemos verdadeiramente morais deve haver uma submissão a um Cristo todo amor que pode fazer aquilo que o homem não pode fazer. E então a dor passa. Embora o vácuo da alma que o pecado nos causou se veja confrontado pelo Cristo, a ênfase é imediatamente levantada do nosso pecado para a Sua misericórdia, do eu para a Cruz. Uma vez abandonada a vontade de pecar, então a alma vê que se tornou aceitável ao Salvador, não porque era boa, mas porque o Salvador é Bom. Em outras religiões deve-se ser purificado, antes de poder bater à porta; no cristianismo, bate-se a porta como um pecador e Aquele que nos responde cura. A crise moral está terminada quando Cristo encara a alma, não como lei, mas como Misericórdia, e quando a alma aceita o convite: “Vinde a mim todos os que trabalhais, e vos achais carregados, e eu vos aliviarei”. (Mat. 11,28)

A crise da conversão é por vezes mais espiritual do que moral. Isto é frequente entre aqueles que têm estado à procura da perfeição, mas não se acham ainda possuídos da Plenitude da Fé e dos Sacramentos. Algumas de tais almas têm levado uma vida de bondade no plano natural; têm sido generosas para com os pobres e bondosas para com seus vizinhos e levado adiante, pelo menos, uma vaga amizade com todas as pessoas. Outras almas já têm tido uma tintura da vida sobrenatural; levam uma vida tão semelhante à de Cristo quando lhes é possível, vivendo para uma fé n'Ele, à medida que vêem à Sua luz. A crise começa nessas almas no momento em que reconhecem que têm tremendas potencialidades não exercitadas ainda, ou começam a almejar uma vida religiosa que fará maiores exigências deles. Até este momento da crise, viveram na superfície das suas almas. A tensão aprofunda-se à medida que comprovam que, como uma planta, têm raízes que necessitam de maior profundidade espiritual e ramos pretendendo à comunhão com os céus. O crescente senso de insatisfação com a própria ordinariedade é acompanhado por uma ânsia apaixonada de submissão, sacrifício e abandono à Santa Vontade de Deus. Tal elevação da Mediocridade ao amor pode ser ocasionada pelo empenho de um santo, pela inspiração de um livro espiritual, pelo desejo de fugir dos meros símbolos para a Realidade Divina. De qualquer maneira que venha, há uma dualidade presente desde o momento em que a alma ouça Cristo dizer: “Sede pois perfeitos, como também Vosso Pai celestial é perfeito”. (Mat. 5,48).

A conversão da mediocridade a uma plena submissão não é mais fácil do que a conversão do pecado à caridade; em qualquer dos dois casos, há a arrancar de um olho e o cortar de um braço. Parece ao convertido que lhe exigem que largue mão de tudo – não só de tudo o que ele tem, mas até mesmo do domínio sobre o seu espírito – mas isto é porque ele ainda não compreendeu a liberdade jubilosa da união com Deus. Os prazeres da carne são sempre maiores na antecipação do que na realização, mas as alegrias do espírito são sempre maiores na realização do que na antecipação.

Nem todos aceitam as exigências feitas durante uma crise espiritual. O jovem rico que havia cumprido os mandamentos desde a sua mocidade, retirou-se triste quando Nosso Senhor lhe pediu que desse o que possuía aos pobres e O acompanhasse. A sua crise passou quando ele escolheu uma comum vida de bondade em vez da vida espiritual. A crise teve fim diferente com outro homem rico, Mateus, que largou a sua banca de coletor de impostos para tornar-se um apóstolo. Provavelmente nenhum dos apóstolos chamados por Nosso Senhor disse: "Agora devo começar a ser um homem bom¨; disseram em vez disso: Agora devo começar a fazer a Sua vontade. Até o tempo duma verdadeira conversão uma alma tem os seus próprios padrões de bondade. Depois de confrontada com a Graça de Deus, nada mais busca senão corresponder à Sua Vontade. Tal alma é tão implacável no seu amor, como o Divino Amor é implacável.

A crise espiritual é bastante geral, pois em cada alma há algum reflexo da ânsia universal de perfeição. Depois da conversão há um amor natural de Deus. A diferença entre os dois foi explicada por S. Tomás: "A natureza ama a Deus sobre todas as coisas sendo Ele como é o começo e o fim do bem natural, mas a caridade (ama-O) tanto quanto Ele é o objeto da beatitude e tanto quanto um homem tem certa amizade com Deus.¨ Toda a pessoa que ama, naturalmente ama a Deus mais do que a si mesmo. Este amor não é consciente em muitas almas e em outros os seus efeitos práticos são limitados pela concupiscência; mas está oculto em cada busca de felicidade, em cada desejo de um ideal bastante largo para satisfazer todos os nossos anseios. O indivíduo pode dar nome errado a este Infinito que busca; pode identificá-lo com a riqueza, com a carne ou com o poder; mas a força motivadora que o impulsiona é ainda a sua procura duma felicidade sem fim. Mesmo quando um homem se decide pelo menos e imagina que ele é o Infinito que procura, não obstante o Supremo Bem é mesmo mais desejado; de modo que Deus é amado consciente ou inconscientemente, por todo o ser capaz de amar. Mas o desejo de possuir Deus em amor seria um desejo ineficaz, se Deus não elevasse a natureza humana. Quando isto acontece, quando a alma passa dum amor natural a um amor sobrenatural de Deus, ocorre uma conversão.

O desejo espiritual do Infinito pode também dirigir-se a Deus como a Verdade Divina. O intelecto humano, cônscio do facto de que não conhece tudo, pode tornar-se dócil em face da Divindade e começar a desejar ardentemente uma luz que somente Deus possa dar. Desapontados na sua mentalidade larga, que não experimentou a verdade com fogo, alguns partem à busca daquela divina Verdade que não admite compromissos. Christopher Hollis, explicando a sua conversão, diz:

“Quando olhei para o Novo Testamento, não encontrei ali nenhum registo de Cristo falando como um amigo falaria; não O encontrei dizendo: ¨ São estas algumas observações que me ocorreram. Ser-me-ia grato que vocês fossem, pensassem nelas e verificassem se poderiam descobrir nelas alguma coisa.” Encontrei-O ensinando com autoridade, proferindo dogmas com violência contra as cabeças do seu auditório, ordenando a seu auditório que aceite a Sua doutrina e lhe exibindo a espantosa ameaça da condenação eterna se recusasse a aceitá-la. Quando eu estava na escola, entre os meus companheiros de classe, havia um presbiteriano e um metodista. Num dos trimestres letivos, o presbiteriano voltou de casa, contando que durante as férias os seus pais haviam lido o Novo Testamento e como resultado tornaram-se católicos. O metodista achou a história bastante divertida. Na ocasião não vi porque era ela tão particularmente divertida e quando, alguns anos mais tarde, vim eu mesmo a ler o Novo testamento, descobri que era mesmo muito menos divertida do que eu tinha imaginado.” [69]

Chesterton, também foi atraído à conversão pelo desejo do saber infinito e explicou-se nestes termos: “Sou o homem que, com a mais atrevida ousadia, descobriu o que já estava descoberto antes.”

É possível que o declínio da razão no mundo moderno possa conduzir cada vez mais as almas a investigar a disparidade entre o que elas conhecem e o que é conhecível. Somente procurando aquilo que está acima do humano pode o espírito humano preservar a sua dignidade: ou a sua razão subirá até à Sabedoria ou as suas emoções encadearão a razão e o homem tornar-se-á um animal. À medida que a carnalidade e o conforto se tornam o alvo comum da vida moderna, os dotados de inteligência lutarão cada vez mais estrenuamente do que nunca pela libertação da sua razão e chegarão a ver finalmente que, sem um Divine Logos, por trás do universo não haveria nunca razão no universo. A crença de Pascal de que há apenas duas espécies de gente dotada de razão parece ser realmente verdadeira – os que amam a Deus de todo o seu coração porque O descobriram, e os que procuram Deus de todo o seu coração, porque não O descobriram.

Hoje existe no mundo um vasto exército de boas almas que ainda não penetraram na plenitude da crise; estão sedentas, mas têm medo de pedir-Lhe de beber, no receio de que Ele derrame bebida do Seu cálice. São frias, mas têm medo de aproximar-se das Suas fogueiras, no receio de que aquelas chamas purifiquem à medida que as iluminem. Sabem que estão aferrolhadas nos sepulcros da sua própria insignificância, mas têm medo de que a ressurreição como a d'Ele, traga as cicatrizes da batalha. Há muitos que gostariam de estender um dedo a Nosso Senhor, mas recuam, trémulos, com medo de que Ele lhes agarre as mãos e lhes solicite os corações. Mas não estão distantes do Reino de Deus. Têm já o desejo d'Ele. Necessitam apenas coragem de atravessar a crise na qual, por meio duma aparente rendição, se descobririam a si próprios como vitoriosos no cativeiro de Divindade.

Mas há um terceiro tipo de conversão causado por um acontecimento físico. A crise é física quando sobrevém por meio duma catástrofe inesperada, tal como a morte duma pessoa amada, um fracasso nos negócios, doença, ou algum sofrimento que obrigue a gente a indagar: “qual o fim da vida? Por que estou aqui? Para onde irei? “ Enquanto há prosperidade e boa saúde, estas perguntas nunca vêm à tona. A alma que tem apenas interesses exteriores não se interessa por Deus, da mesma maneira que o rico cujos celeiros estavam cheios. Mas quando os celeiros estão queimados, a alma é subitamente forçada a olhar para dentro de si mesma, a examinar as raízes de seu ser e a perscrutar no abismo de seu espírito. Esta excursão não é a deleitosa viagem num dia de verão, mas uma trágica indagação da possibilidade que negligenciamos de buscar a melhor riqueza, os tesouros que a ferrugem não consome, as traças não picam e os ladrões não arrombam e roubam – tesouros que somente Deus pode dar, quando os corações estão mais vazios do que qualquer bolsa. Todas as crises, mesmo as de desastre material, forçam a alma para dentro, como o sangue é devolvido para o coração durante alguma doença ou uma cidade atacada recua para as suas defesas internas.

Seria bom hoje para todos nós encarar a possibilidade de uma catástrofe bem grande. Se a catástrofe vier como resultado duma guerra atómica, pouco importa. A sua forma é apenas um pormenor. Mas o que importa é esta possibilidade que conhecemos, não só porque o Santo Padre nos advertiu de que a bomba atómica pode eventualmente ocasionar desastre ao próprio planeta, mas também porque uma tragédia de proporções catastróficas revelaria a um mundo cético que o universo é moral e que as leis de Deus não podem ser infringidas impunemente. Da mesma maneira que deixar de comer provoca dor de cabeça, o julgamento da violação duma lei da natureza e grandes crises na história são julgamentos da maneira pela qual os homens pensam, querem, amam e agem. Os períodos de delírio e as épocas de tragédia que se seguem a um cisma entre a alma e Deus fazem muitas vezes para um povo inteiro o que a doença ou um desastre pessoal faz para um indivíduo pecador.

A doença, especialmente, pode ser um abençoado presságio da conversão do indivíduo. Não somente impede-o de realizar os seus desejos; reduz mesmo a sua capacidade de pecar, as oportunidades do vício. Neste forçado afastamento do mal, que é uma mercê de Deus, tem ele tempo de entrar em si, de apreciar a sua vida; de interpretá-la em termos de vasta realidade. Considera Deus e, naquele instante, há um senso de dualidade, uma confrontação da personalidade com Deus, uma comparação dos factos da sua vida com o ideal de que decaiu. A alma é forçada a olhar para dentro de si mesma, para indagar se não há mais paz neste sofrimento do que no pecado. Uma vez que o homem doente, na sua passividade, começa a perguntar: “Qual o objetivo da minha vida? Por que estou aqui?”, a crise já começou. A conversão torna-se possível no mesmo momento em que um homem deixa de censurar Deus ou a vida, como causa das suas perturbações e começa a censurar-se a si mesmo. Fazendo assim, torna-se capaz de distinguir entre as suas lapas pecadoras e o navio da sua alma. Uma fenda surgiu na armadura de seu egoísmo; agora o raio solar da graça de Deus pode intrometer-se. Mas até que isto aconteça, as catástrofes nada podem ensinar-nos senão o desespero.

Vemos isto na história intelectual do orgulhoso homem do século XX; o seu abandono da filosofia da evolução e do progresso inevitável foi sucedido pela filosofia do desespero, da derrota e do medo. Duas gerações atrás, estava ele sendo quase um deus; hoje, este deus está sendo psicanalisado para descobrir por que se sente ele “como o diabo”. Léon Bloy, que chegou a Cristo por meio de um conhecimento de catástrofe e crise, indaga, como fazem muitos historiadores: “Não estaremos no fim de tudo e não é a palpável confusão dos tempos modernos o sintoma de algum imenso distúrbio sobrenatural que afinal nos porá em liberdade?” O mundo pode ter-se distanciado tanto de Deus e do caminho para a sua própria paz que uma tragédia seria a maior mercê. A pior coisa que Deus nos poderia fazer seria deixar-nos sós no nosso caos presente e na nossa corrupção. Duas guerras mundiais não tornaram o mundo melhor, porém pior. E fica-se a imaginar se futura catástrofe será uma guerra, no mesmo sentido das duas últimas, ou antes alguma calamidade mais seguramente calculada para produzir arrependimento no homem.

Quando uma alma em pecado, sob o impulso da graça, se volta para Deus, há penitência; mas quando uma alma em pecado se recusa mudar, Deus manda o castigo. Este castigo não precisa ser externo e, de certo, nunca é arbitrário; vem como um resultado inevitável da quebra da lei moral de Deus. Mas as forças entrincheiradas do mundo moderno são irracionais; os homens de agora nem sempre interpretam os desastres como os acontecimentos morais que são. Quando a calamidade fere a pederneira dos corações humanos, faíscas de amor sagrado se inflamam e os homens começarão normalmente a fazer uma estimativa do seu verdadeiro mérito. Em épocas anteriores era isto usual: o indivíduo desordenado podia encontrar o seu caminho de volta para a paz, porque vivia num mundo objetivo inspirado pela ordem cristã. Mas o homem frustrado de hoje, tendo perdido a sua fé em Deus, vivendo, como vive, num mundo desordenado, caótico, não tem farol que o guie. Em tempos de perturbação muitas vezes volta-se sobre si mesmo, como uma serpente que devorasse a própria cauda. Dado tal homem, que cultua a falsa trindade: a) do seu próprio orgulho, que não reconhece leis; b) da sua própria sensualidade, que faz do conforto terrestre o seu alvo, c) da sua licença, que interpreta a liberdade como a ausência de toda a contenção e lei – então cria-se um cancro de cura impossível, exceto por meio de uma operação ou calamidade inconfundível, como a ação de Deus na história. É sempre por meio de lágrimas, suor e sangue que a alma se purga de seu egoísmo animal e fica aberta ao Espírito.

Seria errado imaginar que as catástrofes históricas são necessárias, porque há um lado do mundo em que os homens são bons e outro em que os homens são maus. Quando um germe penetra na corrente do sangue, não se isola no braço direito e poupa o esquerdo; é o corpo inteiro que é afetado. O mesmo acontece com a humanidade. Sendo um corpo, todo aquele que pertence à nossa raça é pecador até certo ponto. É o nosso mundo mau e não o deles. Não são os comunistas apenas a causa dos males do mundo, pois toda a ideia do comunismo originou-se no nosso mundo ocidental. Todos nós continuamos necessitados da redenção. Quanto mais cristã é uma alma, tanto mais se vê responsável pelos pecados do seu próximo; tal homem ou tal mulher busca tomar sobre si aqueles pecados, como se fossem os seus próprios pecados, da mesma maneira que Cristo, o Inocente, tomou sobre Si a culpa do mundo inteiro. Como a mais sincera simpatia pelos que estão de luto é chorar, assim também o verdadeiro amor pelos culpados é expiar-lhes a culpa. A carga da regeneração do mundo é, portanto, posta sobre aquele que conhece Cristo e ouve a Sua Voz na Igreja, incorporando-se no Seu Corpo e no Seu Sangue na Eucaristia. Um sentimento da nossa solidariedade no mal pode pois tornar-se uma solidariedade no bem.

Mas não há igualdade matemática - nem pagamento na mesma moeda - na obra da redenção. Dez homens justos podiam ter salvo Sodoma e Gomorra. No ajuste de contas divino, há monjas carmelitas e monges trapistas que estão fazendo mais para salvar o mundo do que os políticos e os generais. O espírito discorde que se apropria da civilização só pode ser afugentado pelas orações e pelo jejum.

Em face do mal há três espécies de almas: as que praticam o mal e negam que haja mal ou o chamam de bem. “Sim, e virá tempo em que todo o que vos matar julgará prestar serviço a Deus. ” (João 16,2) Há também aqueles que vêem o mal nos outros, mas não em si mesmos e que lisonjeiam a sua própria “virtude”, criticando o pecador. “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, eentão verás para tirar a aresta do olho do teu irmão” (Mat. 7,5). Finalmente, há os que carregam a carga da desgraça e do pecado alheios como se fossem seus.

Estamos aprendendo neste século que as divisões que separam os homens uns dos outros são bastante frágeis. A calamidade física derruba estas barreiras. A guerra moderna destrói as linhas limítrofes de combatentes e civis - não que devesse ser assim, mas, pelo menos, as suas violações revelam que numa crise o perigo não é meu, nem teu, mas nosso. Quando bastantes almas devotas transferirem esta unidade dos homens da ordem física para a ordem moral e espiritual, o mundo renascerá.

A catástrofe pode ser para um mundo que se esqueceu de Deus o que uma doença pode ser para um pecador. Em meio dela, milhões podem ser trazidos não a uma voluntária, mas a uma crise forçada. Tal calamidade poria um fim à impiedade e faria que um vasto número de homens, que doutra forma poderiam perder as suas almas, se voltasse para Deus. Depois de uma série de dias quentes e abafados de verão, sentimos que deve haver uma tempestade antes que voltem de novo os dias frescos. Igualmente, nestes dias de confusão, há uma intuição de catástrofe iminente, uma sensação de que alguma imensa perturbação preternatural reduzirá a ruínas o mal do mundo, antes que possamos ser livres de novo. Como disse Goncourt a Berthelot, que se havia vangloriado da futura destruição da guerra por meio da ciência física: “Penso que quando esse dia chegar, Deus, como um vigilante noturno, descerá do Céu, chocalhando Suas chaves e dirá: “Cavalheiros! É hora de fechar.” Se tal acontecer, teremos de recomeçar tudo de novo. Não é uma questão do fim do mundo, mas do fim de uma época - uma manifestação da sublime verdade de que a negação da moralidade e da verdade cristãs nos empurra a todos até à beira da catástrofe, até ao verdadeiro limite da dissolução.

Já se tem dito: “Em tempo de paz, prepara-te para a guerra. ” Melhor seria rever esta frase e dizer: “Em tempos de tumulto e dissolução, prepara-te para encontrar Deus! ” Quando o desastre acontece e os tesouros se dissolvem como um “cortejo insubstancial”, a alma está mais apta a voltar-se para Ele, pelo medo e pelo desespero. Aqui a tensão não é entre o pecador e o Cristo de Misericórdia, nem entre a alma que aspira e Cristo de Misericórdia, nem entre a alma que aspira e Cristo, o Santo Filho de Deus, mas entre o homem partido e Cristo, o Juiz. Haverá alguns, mesmo na crise, que se levantarão contra Deus, pois os pecados de blasfémia, como nos diz o Apocalipse, se multiplicarão com o derramamento dos frascos da cólera. Mas a imensa maioria dos homens verificará, pela primeira vez, que o Seu Julgamento reparte um golpe mais duro quanto mais distantes estamos dos seus caminhos. O própria pensamento de uma guerra atómica com uma catástrofe cósmica fará com que muitos homens apressem a crise, antecipem a tensão e comecem a conversão agora.

Esta espécie de conversão pode também ocorrer entre aqueles que já têm fé. Os cristãos tornar-se-ão realmente cristãos com menos fachada e mais fundamento. A catástrofe os separará do mundo, forçá-los-á a declarar as suas fidelidades básicas; reviverá pastores para que pastoreiem em vez de apenas administrar, inverterá a proporção dos santos e sábios em favor dos santos, criará mais ceifeiros para a colheita, mais colunas de fogo para os tépidos; fará o rico ver que a verdadeira riqueza está no serviço aos necessitados; e, acima de tudo mais, fará a glória da Cruz de Cristo esplender num amor dos irmãos uns pelos outros, como verdadeiros e leais filhos de Deus e filhos devotados da Mãe de Coração Imaculado.

A crise impende sobre todos nós, qualquer que seja a nossa condição e quem quer que sejamos. Mas a crise não será consciente ou efetiva enquanto desacompanhada de desejo. Ora, desejo implica possibilidade: “Nada é impossível com Deus. ” Se não há Deus, então nada é possível. O desejo de Deus é para a alma o que a respiração é para o corpo — a respiração traz para dentro dos nossos seres a possibilidade da vida física de fora, como a oração, que é a mais alta expressão do desejo, traz para dentro das nossas almas a possibilidade da participação em Deus. Este desejo não é inteiramente o próprio desejo da alma, pois se sente até certo grau sob a ação duma suave compulsão: Deus está fazendo pressão sobre a alma, durante todo o tempo em que ela O parece estar pressionando. Mais tarde a alma compreenderá que até mesmo o desejo de Deus vinha de Deus e que os fogos que ardiam dentro de si mesma provinham da lareira de Deus.

A conversão não se segue automaticamente a este anseio; a menos que o desejo de Deus seja mais forte do que velhos hábitos e paixões, a crise do desejo pode terminar em frustração. A graça da conversão pode passar — pois quem perdeu o bote, perdeu a Barca de Pedro. O desejo estava ali, mas, porque não era altamente estimado, o ideal de Cristo foi abandonado e o carnal e o mundano permaneceram.

Nunca houve um convertido que carecesse de desejo — desejo de Deus e também o desejo de tornar-se um homem diferente de qualquer que tenha sido antes. Quando Ernesto Psichari, o neto de Renan, largou os seus antros de pecado em França para seguir para o deserto, a fim de descobrir Deus, disse: “Não tenho desejo mais forte, nem propósito mais firme, do que ir através do mundo para me conquistar a mim mesmo à força. Não atravessarei a terra de todas as virtudes como um mero turista... Deus entrará sob o nosso teto quando quiser. ” A graça — a “entrada” — é a parte de Deus; cultivar e resguardar o desejo da graça é a nossa parte dada por Deus: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á” (Mat. 7,7).

Deus nunca recusa graça àqueles que honestamente a pedem. Tudo quanto Ele pede é que a vaga sede do Infinito, que excitou a alma a procurar o seu bem numa sucessão de prazeres, será agora transformada numa sede do Próprio Deus. Tudo quanto necessitamos fazer é exprimir estas duas petições: “Querido Senhor, iluminai o meu intelecto para que eu veja a Verdade e dai-me a força para a seguir.” É uma oração sempre respondida. E não faz diferença se o desejo de Deus que proclamamos proveio dos nossos enfados, saciedades e desespero, ou se nasceu do nosso amor do belo, da perfeição. Deus quer tomar conta dos nossos velhos ossos ou dos nossos jovens sonhos, pois nos ama, não pelo nosso modo de ser, mas por aquilo que podemos ser por meio da Sua graça.

É bastante curioso que é o medo de como as mudará a graça e as aperfeiçoará, que conserva muitas almas afastadas de Deus. Querem Deus para tomá-las como são e deixá-las ficar do mesmo jeito. Querem que Ele lhes retire o amor pelos ricos, mas não as suas riquezas, que as livre do desprazer do pecado, mas não do prazer do pecado. Algumas delas equiparam bondade com indiferença ao mal e pensam que Deus é bom se for generoso ou tolerante com o mal. Como os espectadores diante da Cruz, querem Deus nos termos deles e não no d'Ele, e gritam: “Desce dessa cruz e acreditaremos em ti. ” Mas as coisas que eles pedem são os sinais duma falsa religião: prometem salvação sem cruz, abandono sem sacrifício, Cristo sem os Seus cravos. Deus é um fogo consumidor. O nosso desejo de Deus deve incluir uma boa vontade para ter o restolho do nosso intelecto queimado e o joio dos nossos pecados consumido. O próprio medo que as almas têm de se render ao Senhor com uma cruz é uma prova da sua crença instintiva na Sua Santidade. Porque Deus é fogo, não podemos escapar a Ele, quer nos aproximemos para a conversão, quer fujamos por aversão. Em qualquer dos casos, Ele afeta-nos. Se aceitarmos o Seu amor, os seus fogos nos iluminarão e nos aquecerão. Se O rejeitarmos, eles ainda nos abrasarão pela frustração e pelo remorso.

Assim como todos os homens são tocados pelo ardente amor de Deus, da mesma maneira todos são também tocados pelo desejo de intimidade com Ele. Ninguém escapa a este anseio. Somos todos reis exilados, miseráveis sem o Infinito. Aqueles que rejeitam a graça de Deus têm um desejo de evitar Deus, como aqueles que a aceitam têm um desejo de Deus. O ateu moderno não descrê por causa de seu intelecto, mas por causa da sua vontade. Não é o conhecimento que o torna um ateu, mas a perversidade. A negação de Deus brota dum desejo do homem de não ter um Deus — da sua vontade de que não haja Justiça por trás do universo, de modo que as suas injustiças não receiem retribuição; do seu desejo de que não haja Lei, de modo que não possa ser julgado por ela; do seu querer que não haja Bondade Absoluta, para que ele possa continuar pecando com impunidade. É por isso que o ateu moderno se mostra sempre encolerizado quando ouve dizer alguma coisa a respeito de Deus e de religião. Seria incapaz de tal ressentimento, se Deus fosse apenas um mito. O seu sentimento para com Deus é o mesmo que um homem mau tem para com alguém a que ele fez um mal. Desejaria que estivesse morto de modo que nada pudesse fazer para vingar o mal. O que atraiçoa a amizade sabe que o seu amigo existe, mas deseja que ele não exista. O ateu pós-cristão sabe que Deus existe, mas deseja que Ele não existisse.

Não podemos fugir à justiça de Deus, negando-O, mas é fácil fugir à Sua amizade. Ele nunca força o nosso amor. A rendição da vontade a Deus é de toda a importância na conversão, por causa do seguinte: Deus não destruirá a nossa liberdade humana. Não dará mesmo provas tão absolutamente omnipotentes que destruam toda a escolha, pois sempre deixa uma margem para o amor. Portanto um prelúdio necessário à conversão é um espírito que se torna dócil, educável e humilde, pois se pensamos que sabemos tudo, nem mesmo Deus pode ensinar-nos.

Tão logo um homem se torna humilde, reconhece a sua própria e longa autodecepção, os pequenos ardis de que se valeu consigo mesmo para ocultar o seu não admitido desejo de Deus. A humildade é a verdade, o reconhecimento de nós mesmos como somos. É por isso que, quando alguém nos acusa de ser um ladrão de carneiros, nós sorrimos; mas quando somos acusados de mentirosos, podemos encolerizar-nos, pois talvez seja verdade. A punição do orgulho é a inabilidade em ser realmente convertido: “Porque o coração deste povo tornou-se insensível e os seus ouvidos tornaram-se duros e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e eu os sare” (Mat. 13,15).

A humildade é tão essencial, na verdade, que Nosso Senhor declarou que a conversão dependia de nos tornarmos como crianças na afeição e no desejo. E disse: “Na verdade vos digo que, se vos não converterdes e vos não fizerdes como crianças, não entrareis no reino dos céus. Todo aquele pois que se fizer pequeno, como esta criança, esse será o maior no reino dos céus” (Mat. 18,3-4).

Em conclusão, pois: esta tensão entre a carne e o espírito, entre o puxão do tempo e a correia da eternidade — esta dialética entre o amor do prazer egoísta e o desejo da paz espiritual, encontra-se em toda a alma sozinha. A razão pela qual maior número de almas não vem para Deus acha-se no facto de que não amam bastante a Deus. Puseram maior anseio ardente do lado da concha que se opõe a Ele. Mas nunca Lhe escaparão, mesmo assim, a luta decisiva continua, enquanto eles viverem.

Toda a alma frustrada que não seja louca acha-se nesse estado porque combateu as altas advertências de Deus: “É inútil fugir, pois Ele está em toda a Parte. Aquele que parece ser vosso Inimigo é a vossa única Fortaleza; Aquele que parece assestar o golpe, é o único que pode apará-lo.”

Havereis de querer continuar essa fuga inútil até que seja demasiado tarde? Havereis de morrer antes que os vossos pecados estejam mortos, Ou consentireis em desejar Deus, antes que todas as vossas paixões estejam extintas? Que melhor tempo do que agora, com almas todas sujas, para vir às Suas mãos purificadoras: Só Ele é o nosso caminho. Fujamos d'Ele e estaremos perdidos. Só Ele é a nossa luz. Afastemo-nos dela, e estaremos cegos. Só Ele é a nossa vida. Abandonemo-Lo e haveremos de morrer. Estaremos com medo de que, se sacudirmos as fogueiras das nossas almas com o desejo, as cinzas venham a sufocar a nossa vida? Devemos dizer que nada temos para dar, que os nossos anos crepitaram e se evolaram em fumaça; mas se não podemos levar bondade para Ele, podemos levar-Lhe os nossos pecados.

Dizeis que estais deprimidos e de espírito acabrunhado? Ele vos traz assim deprimidos somente para fazer que cobiceis as Suas alturas!

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