Angustia e Paz

CAPÍTULO 13
A Teologia da Conversão

A psiquiatria é capaz de proporcionar certa quantidade de paz de espírito, pois ajusta a mente à maneira e a têmpera do mundo, mas nunca indaga se devemos ajustar-nos tão completamente à sociedade atual. “Tirei-vos do mundo”, disse o Salvador. Está-se tornando agora evidente, mesmo para os cínicos, que aqueles que ajudam mais o mundo são os homens destacados do mundo. A paz da alma é uma coisa diferente e mais bela. Resulta da justiça, e não do ajustamento, da renascença e não da integração nos valores do momento. Pax opus justitiae. A justiça implica a subordinação do corpo à alma e de todo o homem a Deus e ao próximo. Por outro lado, o ajustamento é para tornar-se aceitável àqueles que nos cercam, sejam bons ou maus, sábios ou loucos, santos ou homens tais que um santo preferia evitar competir com eles.

É importante distinguir entre as duas espécies de paz. A paz de espírito repousa principalmente no que se chama “sublimação”, que a psicologia descreve como uma redireção dum instinto, paixão ou energia, passando duma forma crua e impulsiva a uma atividade criadora que é social e até certo ponto, ética. Não há nada de muito novo a respeito da sublimação, a não ser o nome, pois, através das idades, todos os sábios mestres reconheceram que é importante desviar o interesse do homem do que é baixo para o que é nobre. Os educadores sempre souberam que uma criança irregularmente curiosa pode muitas vezes ter a sua curiosidade sublimada num sadio interesse pela ciência ou pela história; o instinto combativo é muitas vezes sublimado em sociedades de debates; a desordem de um rapaz pode ser sublimada dando-se lhe o encargo de dirigir um grupo, onde ele tenha de reforçar a disciplina. Tais sublimações, por úteis que sejam, nunca podem dar a paz da alma, porque esta só vem de Deus. As tentativas psicológicas para fazer o homem criar esta espécie de paz – que ele não tem potencialidade de criar – são o mesmo que tentar pegar uma ponta de fio para começar a fiar noutra direção.

Nenhum pneumático liso pode fixar-se e nenhuma pessoa frustrada e infeliz pode curar-se, sem a introdução na sua natureza de alguma coisa que ali já não esteja. É necessária alguma coisa mais para curar um homem, do que o seu próprio líbido ou instinto. A água nunca pode erguer-se acima do seu próprio nível e nenhuma quantidade de drenagem do inconsciente para o consciente pode tornar a corrente do pensamento mais clara, mais limpa ou mais forte. Quando o paciente tenta realizar a sublimação por si mesmo, está bastante apto – e certamente – a ter a sensação de que está praticando a auto-sugestão, experiência um tanto perigosa. Se se acredita que a energia para melhorar provém duma fonte humana exterior, como o psiquiatra, sente ele, muitas vezes com razão, que está sendo manipulado por um homem incapaz de julgar todos os factores do seu caso. Se o psiquiatra é um daqueles que negam a alma isto é quase sempre verdade.

Se um homem está fisicamente doente não tenta curar-se esperando que os remédios se desenvolvam dentro do seu próprio corpo. Nem pode uma alma espiritualmente doente curar-se por completo pelos seus próprios esforços, sem uma energia e um poder introduzidos de fora. A própria vontade do homem doente não é bastante, pois é justamente pelo facto da sua vontade e dos seus instintos estarem em conflito que ele sofre. Nem podem apenas os ideais humanos curá-lo. Não fazem provisão para os conflitos daqueles que não podem atingi-los. Até mesmo os mais nobres dos ideais abstratos são de pouca utilidade para uma pessoa que se sente um fracassado, amputado da possibilidade de êxito e demasiado fraco para realizar a virtude.

É precisamente porque muitos indivíduos estão de uma maneira penosa conscientes da sua fraqueza e da sua frustração que anseiam por um sistema compulsivo de vida que os dispense de toda a responsabilidade. É por isso que se voltam eles para o totalitarismo na vã esperança de que a sua coletividade anónima o privará da carga da escolha. Poucos têm plenamente avaliado esta razão da corrida para o comunismo, pois há algo de bom em buscar o comunismo e algo de mau, como o filho pródigo que estava certo sentindo fome e errado alimentando-se de alfarrobas.

A alma moderna também está certa em ter fome de uma lei mais alta do que a sua própria vontade e errada em aceitar esta lei de um ditador. Com a negação de Deus, dos destinos eternos e da retidão moral, ela se desgostou da sua própria inadequação, da sua própria indignidade em servir como um objeto próprio da devoção narcisista. Como a criança na escola progressiva pergunta: "Devo sempre fazer o que quero?" Tendo negado o Eterno Amor como o objeto da sua escolha, volta-se agora para algo de aparentemente maior do que ela própria, isto é, o formigueiro coletivo do comunismo. Está certo desejar-se alguma coisa para adorar e amar com uma paixão intensa. Está errado adorar-se o falso Deus do Total.

Quando se medita no número de indivíduos que, no meio das suas frustrações, tentam encontrar cura sem a ajuda de um Médico Divino, sem uma energia mais poderosa do que eles próprios, vêm à memória as palavras de Carlyle: “A tragédia da vida não é tanto o que os homens sofrem, mas antes quanto eles perdem”. A maior oportunidade que eles perdem é a de se tornarem algo mais que um homem, pois é possível para um ser humano viver em um de três níveis.
- O primeiro nível é o sub-humano, ou o animal, no qual um homem se contenta em viver somente para o seu corpo, para a sua carne e seus prazeres. Quando toda uma sociedade vive assim temos o que Sorokin chamou uma “Cultura dos sentidos”. Se a razão é usada de qualquer modo neste nível mais baixo, é apenas para descobrir novas técnicas de provisão de emoções vivas e de divertimentos para a natureza animal;
- o homem pode também viver num segundo mais alto nível: o racional. Aqui seguirá ele uma boa vida pagã e defenderá as virtudes naturais, mas sem grande entusiasmo. Sob a inspiração apenas da razão, é ele tolerante, filantrópico; favorece os párias sociais e contribui para empresas da comunidade, mas recusa-se a acreditar que há um conhecimento fora do alcance do seu próprio intelecto ou uma energia que excede a sua própria vontade;
- bem acima destes dois níveis, há um terceiro, que é o nível divino. Neste o homem, graças à graça de Deus, é elevado à ordem sobrenatural e torna-se um filho de Deus.

Estes três níveis podem ser comparados a uma casa de três andares: o primeiro andar está muito mal mobilado; o segundo tem algum conforto; mas o terceiro está arrumado com luxo e cheio de paz. Um indivíduo que vive para prazeres puramente animais tomará como uma estranha tolice a sugestão de que há um nível de razão acima do primeiro andar, onde ele vive de acordo com os seus instintos sexuais. E sugerir àqueles que vivem no segundo andar da razão que existe ainda um andar acima, onde a paz de espírito se torna paz da alma, é convidá-los a ridicularizar a ordem sobrenatural. Aqueles que moram no segundo andar não têm compreensão alguma do que seja o sobrenatural. Encaram-no como um excesso piedoso, tão sem importância como a geada num vidro de janela ou a preparação de um bolo. Estão querendo admitir que há assimilação no universo e que o progresso tem sido para o alto e vertical, do mineral ao homem, mas quando chega ao desenvolvimento do próprio homem, recusam-se a admitir uma continuação do mesmo processo vertical. Vêem o passado em termos de um processo para cima até que o homem foi produzido; desse tempo em diante, insistem que ele se move apenas num plano horizontal e que o progresso do homem deve ser medido pela sua crescente habilidade na manipulação da natureza, da riqueza e da aquisição de melhores condições materiais, tudo isto exterior ao homem. Os que recusam subir do segundo para o terceiro andar são bastante semelhantes aos dois sapinhos que estavam um dia discutindo a possibilidade de um reino mais alto do que o dos sapinhos. Um sapinho disse ao outro

“Penso que vou levantar a minha cabeça fora d'água para ver com que se parece o resto do mundo”. O outro sapinho disse: “Não seja palerma. Por certo não está querendo fazer-me acreditar que há alguma coisa neste mundo além da água”.

Uma criatura racional deveria perguntar a si mesma por que, se os minerais podem fazer parte das plantas, as plantas ser absorvidas nos animais e os animais absorvidos no homem, seria negado ao próprio homem, pináculo da criação visível, o privilégio de ser assimilado por um poder mais alto? A rosa não tem direito de dizer que não há vida acima dela e nem o tem o homem, que possui vasta capacidade e anseio inconquistável de vida eterna, de verdade e de amor.

O sobrenatural, o terceiro nível em que podemos viver, não é um produto do natural, como o carvalho que se desenvolve de uma bolota: assinala uma quebra completa, um recomeço. O desenvolvimento não é um progresso gradual, no qual um homem se torna mais tolerante, de espírito mais aberto, mais articulado com a justiça social, menos odiento e menos avarento, até que finalmente atinge um ponto em que descobre que é cristão e cidadão da ordem sobrenatural. Não é isto que acontece.

É lei da física que um corpo continua num estado de repouso ou de movimento uniforme em linha reta, até que seja compelido por forças exteriores a mudar aquele estado. O homem, também está sujeito à inércia e permanecerá num estado meramente natural, a menos que seja mudado de fora. As pedras não se tornam elefantes, nem elefantes homens. O homem, por natureza, é apenas uma criatura de Deus, quase da mesma forma que uma pedra ou um pássaro é uma criatura de Deus, embora o homem reflita alguns dos atributos de Deus mais fielmente do que fazem as estrelas e as plantas. Na verdade, a ordem sobrenatural é algo a que o homem não tem títulos. Não obstante, outrora pertenceu à nossa raça. Em resultado, todo o homem é agora um rei no exílio. Mas o privilégio sobrenatural de ser um filho de Deus, com direito a chamá-Lo Pai, foi sempre tão inatingível para a natureza do homem, como a vida é para um cristal. Se um pedaço de mármore subitamente rebentasse em flor, seria isto um ato “sobrenatural”, pois não pertence aos poderes, à natureza ou às capacidades do mármore o florir. Se uma flor subitamente começasse a mover-se de lugar para lugar e a tocar, gostar, sentir, isso seria um ato “sobrenatural”, pois não pertence aos poderes, à natureza ou às capacidades da flor possuir os cinco sentidos. Se um cachorro começasse subitamente a citar Shakespeare e Sófocles, isto seria um ato “sobrenatural” para um cachorro, pois raciocinar não pertence à natureza, aos poderes ou às capacidades de um cachorro. O homem é, por natureza, uma criatura de Deus, tão humildemente como uma mesa é a criatura dum carpinteiro. Se subitamente começasse ele a palpitar em uníssono com a própria vida de Deus, de modo a poder chamar a Deus, não apenas seu Criador, mas seu Pai, isto é um ato sobrenatural para um homem. O homem torna-se então algo que não era. Esta elevação da sua natureza só pode ocorrer como um dom de Deus.

Uma planta é mais do que a soma dos produtos químicos que a compõem, porque uma planta possui uma qualidade X que não é a ordem química; um animal é algo mais do que a soma das qualidades da planta, porque possui um X que não se encontra na ordem antecedente; e, da mesma maneira, o homem possui uma qualidade X que o torna diferente do animal, algo que o torna capaz de rir, de pensar e de amar livremente. Mas quando um homem entra na ordem sobrenatural, introduz-se nele nova e maior qualidade X, algo que é diferente na sua natureza da soma de virtudes meramente naturais que ele possa ter possuído antes. É por isso que, através das Sagradas Escrituras, é o homem constantemente convidado a tornar-se algo que ele não é. Afirma-se, nas sagradas Escrituras, uma diferença entre fazer e gerar. Fazemos o que é diferente de nós: por exemplo, um homem faz uma mesa. Mas geramos aquilo que é igual a nós: por exemplo, um pai gera um filho. Considerando que fomos feitos por Deus, somos diferentes d'Ele na Sua Natureza Divina; considerando que somos gerados por Deus, podemos tornar-nos iguais a Ele, ser participantes da Sua Natureza, tomar o nosso lugar como Seus Filhos e Herdeiros do Reino de Deus. Isto só é possível em virtude duma miraculosa elevação, que não é nossa por direito ou natureza, pois se a ordem sobrenatural fosse natural ao homem, então o próprio homem seria Deus.

Isto suscita a importante questão de como pode o homem tornar-se maior do que era – do que acontece quando um homem se converte. A resposta é a seguinte: O homem é erguido à ordem sobrenatural e convertido de criatura em participante da Natureza Divina. Isso só pode sobrevir através da graça de Deus, com a qual o próprio homem colabora livremente.

Há em toda a natureza uma lei que diz que nenhuma ordem mais baixa jamais se ergue a uma ordem mais alta sem duas coisas: deve haver uma descida da ordem mais alta à ordem mais baixa, e, em segundo lugar, a ordem mais baixa deve submeter-se à mais alta. Antes de poderem os fosfatos, o carvão, a luz do sol e a humidade ser absorvidos na vida da planta, deve a planta descer à ordem quimica e absorvê-la em si mesma; e os fosfatos, o carvão, a luz do sol e a umidade têm de abandonar a sua existência mais baixa ao serem elevados. A planta não pode começar a viver no animal, a menos que primeiramente o animal descaia até a vida da planta e a eleve até si mesmo; mas a planta também se imola ao animal - tem de ser arrancada das suas raízes e triturada pelas próprias mandíbulas da morte. Depois, e somente depois, começa ela a viver no reino animal e a partilhar as alegrias da sensação que não possuía antes. O animal começa a viver no homem somente quando o homem desce ao animal e o absorve em si; mas o animal, por sua vez, deve submeter-se à faca e ao fogo, pois somente pela submissão à sua baixa existência pode começar a viver no reino mais elevado do homem. Então participa o animal da vida de um ser humano que pensa, que quer e que ama. Se as plantas e os animais pudessem falar, diriam as coisas que estão abaixo deles: “A menos que morrais, não podereis viver no meu reino.” O homem, que pode falar, diz aos minerais, às plantas e aos animais: “A menos que morrais para a vossa natureza mais baixa, não podereis começar a viver no meu reino.” A recompensa da imolação de todas essas ordens mais baixas é que agora vivem no homem uma espécie de existência bem mais magnífica do que a que poderiam atingir em si mesmas. Passam a viver sob novo governo, a sua existência fica enobrecida, a sua vida enriquecida, a sua natureza elevada. Esta é a recompensa da sua submissão.

Como começa o homem a viver a vida mais alta em Deus? Antes de tudo, deve Deus descer até ele, o Eterno deve invadir a história humana: é este o significado da Encarnacão. Em segundo lugar, deve o próprio homem submeter a sua natureza mais baixa. Mas aqui aparece uma diferença entre o homem e todas as outras criaturas. O homem é uma pessoa que a luz do sol, a erva e as vacas não são. As suas naturezas mais baixas são destruídas pela submissão deles ao homem, mas desde que o homem é uma pessoa, a sua personalidade é indestrutível. O que o homem submete, pois, não é toda a sua natureza, mas somente aquela parte dela que é pecadora, que é diferente de Deus. Na conversão um homem sofre uma mortificação, uma espécie de morte espiritual, mas a sua personalidade sobrevive.

O ato especifico por meio do qual um homem morre para a sua natureza mais baixa é o Sacramento do Batismo. Este começo da sua vida sobrenatural não marca uma simples mudança de direção, mas uma elevação ou, melhor ainda, uma regeneração. Podemos portanto compreender porque o velho que perguntou o que deveria fazer para ser salvo recebeu de Nosso Senhor a resposta de que deveria nascer de novo. O velho Nicodemos pensava que estas palavras significavam que deveria ele entrar de novo no ventre da sua mãe, mas Nosso Senhor informou-o de que “... quem não renascer por meio da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne, é carne: e o que nasceu do espírito, e espírito.” (João 3, 5-6). O âmago do próprio cristianismo é a inspiração para o homem de lutar para se tornar-se algo que ele não é: “Mas a todos os que o receberam, deu poder de se tornarem filhos de Deus aos que crêem no seu nome: os quais não nasceram do sangue, nem da vontade de carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (João 1,12-13).

Assim como a alma dá vida ao corpo, da mesma forma a graça, ou participação na Natureza Divina, dá vida à alma. Um corpo pode estar vivo quando a sua alma está morta: “Se tens o nome de ser vivo: e estás morto...” (João 3,1). Aos olhos do espírito, cada metrópole e cidade estão cheias de tais cadáveres espirituais. As pessoas parecem estar vivas; comem, vão aos cinemas, casam-se, tratam de política e têm uma oportunidade entre 12.000 de ser entrevistadas por um Relatório Kinsey, mas as suas almas estão mortas. Contudo esta morte não necessita de ser permanente, pois enquanto há vida física, há esperança espiritual para todo o homem. Enquanto há respiração, há ainda uma possibilidade de que a natureza humana venha a ser divinizada pela graça.

Aqueles que estão espiritualmente vivos não vêem Jesus Cristo como apenas um mestre de moral ou um grande humanista. Sabem que Ele pode ser chamado mais apropriadamente o Grande Divinatário, Deus em carne humana, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cuja finalidade ao vir a esta terra foi restituir-nos aquela vida sobrenatural perdida pelo pecado original: “Eu vim para que tenham vida e possam tê-la mais abundantemente” (João 10,10). No universo visto do ponto de vista divino, não há raças ou nações. Há, porém, duas humanidades. Há os que nascem da carne e pertencem à humanidade de Adão; mas os que nasceram do espírito pertencem à nova e redimida humanidade do novo Adão, Cristo, que teve Maria como mãe. O que o nascimento físico é para a criança da natureza, o Batismo é para a criança espiritual de Deus. Os filhos parecem-se com os pais, porque participam da mesma natureza; assim, graças ao Batismo, os filhos espirituais começam a parecer-se com Deus, pois agora nasceram da Sua Natureza.

Há outros paralelos entre o físico e o sobrenatural. Para a humanidade viver a sua vida natural requerem-se sete condições: os homens devem ser nascidos; devem ser nutridos; alguns deles devem crescer até à maturidade e assumir as suas responsabilidades; se os seus corpos forem feridos, as feridas devem ser curadas; se há doença, os sinais daquela doença devem ser apagados; deve haver propagação para perpetuidade da raça e a humanidade para sobreviver deve viver sob alguma regra de ordem e governo. A fim de podermos levar a vida sobrenatural, o Nosso Bendito Senhor instituiu sete Sacramentos, análogos a essas sete condições da vida física. Os sinais materiais são usados nos Sacramentos, como canais para a comunicação da Sua graça. Se fossemos anjos, não necessitaríamos de tais sinais visíveis, mas desde que temos corpos, tanto como almas, e desde que a natureza se rebelou pela ofensa do homem, é conveniente que a natureza também seja restaurada para Deus. Daí o uso do óleo, do pão, da água, das mãos e do vinho na administração dos sete Sacramentos.

Assim como um homem deve ser nascido antes de poder começar a viver a sua vida física, da mesma maneira deve ser nascido para viver uma Vida Divina. Este nascimento ocorre no Sacramento do Batismo. Para sobreviver, deve ele ser nutrido pela Vida Divina; isto é feito pelo Sacramento da Sagrada Eucaristia. Deve crescer espiritualmente e assumir as suas responsabilidades espirituais; isto é realizado pelo Sacramento de Confirmação. Deve curar as feridas do pecado; para isto existe o Sacramento da Penitência. Deve apagar os traços do pecado no final, preparar-se para a sua jornada até a vida eterna; para isto há o Sacramento da Santa Unção. O homem deve também prolongar e edificar o Reino de Deus, para o que lhe é dado o Sacramento do Matrimónio. Deve viver sob um governo espiritual; isto é provido por meio do Sacramento das Sacras Ordens no sacerdócio.

A natureza faz a natureza humana, mas a graça refaz a natureza humana. Todas aa pessoas nascidas podem também regenerar-se, renovar-se e reviver, se estabelecem contato com novas e divinas fontes de energia. O cristianismo dá um alto valor à natureza humana, mas não leva demasiado longe a sua confiança nesses poderes por si sós. Diz que o homem na sua natureza humana não é santo nem demónio; não é intrinsecamente corrupto, nem imaculadamente concebido. Necessita de assistência divina para aperfeiçoar essa natureza. E é vantajoso para ele, não importa quão mau tenha sido no passado; até mesmo um homem que apedrejou um mártir como Estevão, como Paulo fez, pode ainda ser salvo, não por si mesmo, mas pela graça de Deus, como Paulo foi. E desde que a nova energia e o novo poder para redimi-lo vêm de Deus, está fora de propósito que qualquer homem proteste: “Não sou bastante bom.” Sem dúvida que não. Nenhum homem é bastante bom. Mas ocultas reservas de poder estão disponíveis para quem que assim deseje. Foi por isso que o Nosso Salvador disse: “Pedi, e vos será dado: buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.” (Mateus 7,7).

Os que carecem de graça – esse dom de Deus que é dado tão livremente – têm vida física mas não têm vida espiritual. Isto suscita a pergunta: “Por que não aceitam todos a graça?” A resposta deve ser encontrada no facto de que o homem, único em toda a natureza, é livre. A erva não precisa de consultar a humidade antes de absorvê-la em si; a vaca não necessita suplicar à erva que venha com ela para o reino animal; mas o homem é livre e Deus não derrubará portas para impor às nossas vontades um destino mais alto. O Divino pode apenas rogar e suplicar; mostrará quanto nos ama, morrendo para redimir-nos. Mas não usará de força, mesmo para salvar-nos da nossa própria preferência míope por uma porção de vida mais mesquinha.

Algumas pessoas em países atrasados recusam vacinar-se; têm medo de ser salvas por um mistério que não compreendem. Algumas pessoas doentes não querem ver um médico; têm medo de que ele possa aconselhar uma operação como condição de recuperação da saúde. No reino espiritual também, podemos recusar a nossa cura. Não podemos iniciar a nossa própria salvação, pois o primeiro movimento de regeneração vem de Deus, mas podemos impedi-lo pela nossa recusa em colaborar. A graça e a liberdade humana estão relacionadas como as duas asas de um pássaro; ambas são necessárias para o vôo. A graça é um dom e todo dom pode ser rejeitado. O amor nunca é imposto. Impô-lo seria destruir o amor.

Pelo facto de ser a aceitacão da graça um ato livre, implicando uma escolha, segue-se que alguns homens relutarão sempre em aceitá-la, especialmente desde que, de maneira invariável, exige um sacrificio, O rico jovem do Evangelho foi embora triste porque tinha grandes bens. Santo Agostinho em certa época da sua vida disse: “Amado Senhor, quero ser bom, mas mais tarde, não agora”. O grande problema, que enfrenta toda a criatura humana, diz respeito, não à sublimação mas à elevação. Está ele querendo submeter o mais baixo para descobrir os êxtases do mais alto? Deseja ele bastante a Deus para dominar os obstáculos que o conservam distante? Ama ele bastante a luz do sol para abrir os postigos que o seu próprio agnosticismo baixou?

A aceitação da graça não é uma coisa passiva. Exige uma submissão de alguma coisa, mesmo que seja apenas do nosso orgulho. Só este facto daria pausa àqueles naturalistas que nos dizem que o sobrenatural é apenas um mito, pois desde quando exigem os mitos e fantasias tais sacrifícios ou fazem perguntas tão difíceis de refutar? Os mitos pedem apenas credulidade e nunca que se arranque um olho ou se corte fora um braço, como faz o Evangelho. Contudo estes sacrifícios devem ser feitos, este preço pago, se quisermos viver vidas plenas. Nenhum escultor pode cinzelar, nenhum artista pode pintar, a menos que se afaste da tagarelice barulhenta, a fim de comungar com o belo; assim podemos ganhar intimidade com a Divindade somente se respondermos ao convite da graça de Deus com uma voluntariedade capaz de fazer-nos ceder algum vistoso tesouro, de entregar o campo, a fim de comprar a pérola de grande preço.

VOU AQI NA REVISÃO

Então a vida pode realmente começar, pois, sem o dom sobrenatural, todo o homem ainda não está desenvolvido. Alimentai um homem até que fique “nutrido”; cercai-o de maneira que satisfaça todas as suas paixões; dai-lhe licença para fazer o que quer que lhe agrade; encastelai-o; engaiolai-o; saciai-o; acaricia-o; diverti-o! E invariavelmente, sempre e sempre, estará ele ainda buscando aquilo que não tem, apoderando-se de algo já além do seu alcance, ansiando pelo que não é do mundo no coração do mundo. Sem esta grande realidade que é Deus, o homem conhece-se apenas como semi-real e adequadamente se define como “Não sou”. Assim, vagamente percebe a grande necessidade d'Aquele que se define como: “Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão fosse feito, eu sou” (João 8,58).

A recusa do dom sobrenatural de Deus é o engano mais trágico que o homem possa cometer. A sua aceitação chama-se conversão. Contrariamente à crença comum, uma conversão não é causada pelas emoções; as emoções refletem apenas um estado mental, e esta mudanca concerne à alma. A esse processo, também, está restrito à ordem da natureza. A conversão olha para cima, não para dentro; é uma experiência de modo algum relacionada com a maré invasora do inconsciente na consciência de um homem. A conversão, antes de tudo e principalmente acima de tudo mais, é devida à Graça Divina, um dom de Deus que ilumina o nosso intelecto para que perceba verdades que nunca percebemos antes e revigora a nossa vontade para seguir aquelas verdades, mesmo que exijam sacrifícios na ordem natural. A conversão é devida à invasão de um novo poder, à intima penetração de espírito em espírito, à influência do imutável sobre o caráter fluido do homem.

Na sua nova certeza da presença do Poder Divino, o indivíduo volta-se para toda a sua personalidade, e não para o seu “eu mais alto”, mas para o novo eu mais alto, que é Deus. Aqueles que têm respondido a este dom da graça começam por perceber a presença de Deus duma maneira nova. A sua religião deixa de ser “moralística” no sentido de que um homem se submete simplesmente a um código, a uma lei, e sente a necessidade de obedecer a elas como um dever. A religião também se ergue acima do nível pietista, no qual existe uma amável recordação de Nosso Senhor, uma espécie de sentimental companhia de viagem, através de hinos e sermões, com Alguém que viveu há 2000 anos atrás. Pois embora muitas pessoas tenham descoberto uma considerável completação emocional neste plano pietístico, não é cristianismo e não se torna cristianismo, enquanto não se entrar no terceiro estágio, o Mistico. Aqui afinal – onde Cristo realmente mora nos nossos corações, e onde há uma certeza enraizada no amor, e onde a alma sente o tremendo impacto de Deus operando sôbre ela — aqui se encontra a alegria que ultrapassa qualquer compreensão.

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