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CAPÍTULO 1
Frustração
Se as almas não forem salvas, nada se salvará. Não poderá haver paz no mundo se não houver paz nas almas. As guerras mundiais não passam de projeções dos conflitos travados dentro das almas dos homens modernos, pois nada acontece no mundo exterior que não haja primeiro acontecido dentro de uma alma.
Durante a Segunda Guerra Mundial, disse Pio XII que o homem pós-guerra haveria de ficar mais mudado do que o mapa da Europa pós-guerra. É este desiludido homem pós-guerra, ou seja a alma moderna, que nos interessa neste volume.
Ele mostra-se, como o Santo Padre predisse, diferente dos homens de épocas mais remotas. E essa diferença está em que a alma moderna já não procura encontrar Deus na natureza. Em outras gerações, o homem, contemplando toda a vastidão da criação, a beleza do firmamento e a ordem dos planetas, disso deduzia o poder, a beleza e a sabedoria do Deus que criou e mantém esse mundo. Infelizmente, porém, o homem moderno está separado dessa aproximação por vários obstáculos: impressiona-o menos a ordem da natureza do que a desordem dos seus próprios pensamentos, que se converteram na sua principal preocupação. A bomba atómica destruiu o seu temor por uma natureza que o homem pode agora manipular para destruir outros homens, ou até para cometer o suicídio cósmico. E, finalmente, a ciência da natureza é demasiado impessoal para esta época concentrada em si mesma. A antiga aproximação não só converte o homem num mero espectador da realidade, em vez de o fazer criador, como também exige que a personalidade do buscador da verdade não se intrometa na investigação. Mas é a personalidade humana, e não a natureza, o que realmente interessa e preocupa os homens de hoje.
Esta mudança verificada na nossa época não significa que a alma moderna tenha abandonado a procura de Deus, mas abandou a forma mais racional – e atá mais humana – de O procurar. Não a ordem no cosmos, mas a desordem que há no próprio homem; não as coisas visíveis do mundo, mas as frustações, os complexos e as ansiedades invisíveis da sua própria personalidade. Estes são o ponto de partida do homem moderno, quando se debruça interrogativamente sobre a religião. Em dias mais felizes, os filósofos discutiam o problema do homem; agora analisam o homem como um problema.
“Devido ao seu cepticismo o homem moderno é lançado sobre si mesmo; as suas energias correm para a fonte que as originou e fazem vir à superfície os conteúdos psíquicos sempre presentes, ocultos, porém, no lodo enquanto a corrente flui normalmente no seu curso. Como totalmente distinto se revelava o mundo ao homem medieval! Para ele, a terra estava eternamente fixa e imóvel no centro do universo, cercada pela trajetória de um sol que solicitamente lhe dispensava o seu calor. Os homens eram todos criaturas de Deus, sob a cuidada carícia do Altíssimo, que os preparava para a eterna bem-aventurança. E todos sabiam exatamente o que deveriam fazer e como deveriam conduzir-se para de elevar-se dum mundo corruptível a uma existência gozosa e incorruptível. Uma vida semelhante já não nos parece real, nem sequer nos nossos sonhos. A ciência natural há muito que fez em farrapos esse formoso véu. Essa época acha-se tão distanciada no passado como a meninice, quando o nosso pai era inquestionavelmente o homem mais belo e mais forte da terra.” [1]
Antigamente, o homem vivia num universo tridimensional onde, na terra que ele habitava com os outros, avistava acima o céu e abaixo o inferno. Esquecido de Deus, a visão do homem ficou ultimamente reduzida a uma só dimensão; agora pensa na sua atividade considerando-a limitada à superfície da terra: um plano sobre o qual se move, não subindo para Deus ou descendo para Satanás, mas somente para a direita ou para a esquerda. A antiga divisão teológica entre os que se encontram em estado de graça e os pecadores, cedeu o lugar à separação política em direitistas e esquerdistas. A alma moderna limitou decididamente os seus horizontes. Negando os destinos eternos, chegou a perder até a sua confiança na natureza, pois a natureza sem Deus é traiçoeira.
Para onde pode ir a alma, agora que se levantou uma barreira nas saídas para o exterior? Como uma cidade, cujas muralhas externas foram capturadas, o homem tem de refugiar-se em si mesmo. Assim como uma corrente de água que, bloqueada, se revolve contra sí própria, juntando espuma, resíduos e lama, assim a alma moderna (que careça dos objetivos ou canais do cristão) dobra-se sobre si mesma e, nesse estado de obstrução, recolhe todo o sedimento sub-racional, instintivo, escuro e inconsciente que nunca se teria acumulado, se existissem as saídas normais dos tempos normais.
O homem descobre então que está encerrado em si mesmo, que é prisioneiro de si próprio. Encarcerado por si mesmo, tenta então compensar a perda do universo tridimensional da fé, procurando três novas dimensões dentro do seu próprio cérebro. Por cima do seu ego, o seu nível consciente, descobre, em lugar do céu, um tirano inexorável a quem chama super-ego. Na sua consciência, no lugar do inferno, põe um mundo oculto de instintos e solicitações, desejos primitivos e necessidades biológicas, a que chama id ou infra-ego.
Essa concepção da natureza humana, composta de três camadas ou regiões, foi posta em relevo por Sigmund Freud. Constitui um elemento essencial na doutrina psicanalítica da natureza humana.
A característica mais importante dessa doutrina é a crença de que a vida mental consciente do homem, as suas experiências e a sua conduta, são determinadas, não pelo que ele conhece, sente ou pretende, mas por forças na sua maior parte ocultas da sua consciência.
O seu ego ou consciência é apenas o campo de batalha onde se trava uma guerra incessante entre as suas necessidades biológicas, primitivas e as potências representadas pelo super-ego. Estas potências ocupam o lugar da consciência e têm origem, não no conhecimento de uma lei natural e da obrigação do homem perante a lei divina, mas da pressão social, da influência do ambiente sobre a mente moldável da criança. Uma vez que a satisfação das necessidades primitivas é fiscalizada pela sociedade (como, por exemplo, no ensino do comportamento na casa de banho), elas ficam “frustadas”. Deste modo a criança adopta todas as leis, pontos de vista e valores do mundo adulto quando aceita todas essas normas como próprias… De modo que a criança apossa-se de todas as leis, pontos de vista e valores do mundo adulto, quando aceita esses padrões como próprios. Faz isto identificando-se com a pessoa a quem veria como um antagonista numa sociedade primitiva. Assim surge o super-ego, que adquire os seus conteúdos – regras, tabus e ideais que pertencem ao mundo que rodeia a criança.
Segundo esta moderna concepção da vida subjetiva, aparece o homem como cativo dentro da sua própria mente e como uma vítima de forças que não pode reconhecer. Para libertar-se, se isso for possível, deve conhecer melhor a sua prisão. É essa uma das razões da grande popularidade de que goza hoje a psiquiatria. Esta ciência promete explicar o homem a si mesmo, capacitá-lo a ajustar-se melhor à sua trágica situação. Certo tipo de psiquiatria tenta explicar ao homem por meio duma teoria que afirma que a consciência carece de valores, que só através do inconsciente poderá o homem moderno abrigar a esperança de descobrir uma solução para a sua infelicidade. Segundo essa teoria, o consciente é ao mesmo tempo impelido de baixo pelo id e comprimido por cima pela pressão do super-ego. O homem consciente fica assim indefeso entre ambos. A psiquiatria torna-se então uma espécie de lima de ferro, por meio da qual espera evadir-se dessa prisão mental onde ele próprio se encerrou, agindo como guarda de si mesmo.
Esta teoria psicanalítica vê a explicação de toda a conduta humana encerrada dentro da mente dos indivíduos. Mas o paralelo entre as modernas teorias do mundo interior e do mundo exterior é notável. Ambos os sistemas de pensamento exaltam a tensão e a possibilidade de uma explosão. O profeta de um é Marx, cuja filosofia tem como centro o conflito social; o profeta do outro é Freud, cuja principal inquietação gira em torno dos conflitos individuais. Em ambas as concepções, afirma-se que o estado caótico e desafortunado dos assuntos do homem nasce da tensão existente entre as aspirações superficiais, por um lado, e, por outro, as forças escondidas, obscuras, irracionais, que, ainda que desconhecidas, são as verdadeiras determinantes de tudo o que ocorre.. Assim como no Marxismo o aparente estado social, político, cultural, não é mais que uma “superestrutura”, erigida sobre as forças económicas subjacentes, da mesma maneira no sistema de Freud a conduta consciente é apenas um produto de forças localizadas no inconsciente. “Em ambos, as situações humanas são vistas em termos de interesses antagónicos. A psicologia de Freud analisava as neuroses como um resultado de um choque entre o desejo e a lei. Ao mesmo tempo que Freud trata das contradições internas dos processos psíquicos, o seu método para explicar essas contradições segue uma estratégia materialista”. [2]
Quando o conflito entre as forças inconscientes e o ego consciente atinge certa intensidade, o efeito, segundo Freud, é um cataclismo, seguido de uma ruptura da vida e da conduta. Para Marx, de maneira análoga, a paz social é interrompida quando surge o proletariado, e isto ocorrerá quando as forças económicas inferiores forem bastante fortes para derrubar a ordem social, política e económica existente. Freud e Marx concordam ainda em que todos os acontecimentos, sociais e pessoais, são estritamente predeterminados. A liberdade espiritual é negada por ambos. O marxista defende que a história é determinada por forças económicas; o freudiano, que o destino pessoal do homem depende de forças instintivas. Ambos consideram a abolição das inibições como o meio de atingir um melhor estado de coisas. A própria existência deste paralelismo de pensamento indica como o homem moderno se entende, ou se entende mal, dentro do “clima” cultural, intelectual e filosófico geral dos tempos. O materialismo histórico — a filosofia de Marx— e o materialismo psicológico — filosofia de Freud — são filhos da mesma época e exprimem as mesmas atitudes básicas.
Os complexos, ansiedades e temores da alma moderna não existiam com tal extensão em gerações anteriores, porque foram arrancados e integrados no grande organismo sócio espiritual da Civilização Cristã. Formam, porém, tão grande parte do homem moderno que se pensaria estarem tatuados neles. Qualquer que seja a sua condição, o homem moderno deve ser reconduzido a Deus e à felicidade. Mas como? Deveria o cristão, com as suas verdades eternas, insistir em que o homem moderno deva regressar ao caminho tradicional, cujo argumento partiu da natureza? Deve insistir que deva aproximar-se de Deus por meio dos cinco argumentos de São Tomás? Seria um mundo mais são, se ele o pudesse fazer. Mas é objeto deste livro mostrar que devemos começar considerando o homem moderno como ele é e não como gostaríamos que fosse. Pelo facto de haver esquecido isto é que a nossa literatura apologética está atrasada cerca de cinquenta anos. Deixa fria a alma moderna, não porque os seus argumentos não sejam convincentes, mas porque a alma moderna está demasiadamente confusa para os entender.
Mas nós que somos herdeiros de vinte séculos de pensamento sensato não devemos lidar com o sobrenatural como um cachorro com um osso. Se a alma moderna quiser começar a sua procura de paz com a sua psicologia, em vez de o fazer com a nossa metafísica, começaremos pela psicologia.
A verdade de Deus teria poucas facetas, se não pudesse emparceirar-se com a natureza humana em qualquer grau de perfeição ou mesmo de degradação. Se o homem moderno quiser ir do demónio até Deus, então começaremos mesmo com o demónio? Foi por onde começou o Divino Mestre com Madalena e disse aos Seus discípulos que, com oração e jejum, também eles poderiam começar ali a sua obra evangélica.
A abordagem psicológica não nos oferece qualquer dificuldade, pois a teologia cristã é, em certo sentido, uma psicologia, uma vez que o seu principal interesse é a alma, a mais preciosa das coisas. Nosso Senhor pesou um mundo em confronto com uma alma e achou a alma mais digna de ser ganha do que o mundo. Estudar almas não é nada de novo. Em toda a gama da psicologia moderna nada há escrito a respeito de frustações, temores e ansiedades que possa comparar-se em profundidade ou amplitude, com o tratado de São Tomás sobre as Paixões, com as Confissões de Santo Agostinho ou com o tratado de Bossuet sobre a concupiscência.
Mas, poderia perguntar-se, não é a alma humana tão diferente da de épocas anteriores, que falte aos antigos escritores experiência de tal fenmeno e assim nem mesmo o Evangelho poderá oferecer remédio? Não. Não há nada de realmente novo no mundo. Há apenas os velhos problemas acontecendo a gente nova. Não há diferença, exceto a terminologia, entre a alma desiludidade de hoje e as almas desiludidas que se encontram no Evangelho. O homem moderno caracteriza-se por três alienações: está separado de si mesmo, do seu próximo e do seu Deus. São estas as mesmas características da juventude frustrada do país dos gerasenos.
SEPARAÇÃO DE SI MESMO – O homem moderno já não é uma unidade, mas um estado confuso de complexos e de nervos. Está tão desassociado, tão alienado de si mesmo que se vê cada vez menos como uma personalidade e mais como um campo de batalha, onde se trava uma guerra civil entre mil e uma lealdades em conflito. Não há um propósito único, na sua vida. A sua alma pode ser comparada a uma jaula na qual numerosas feras, cada qual buscando a sua própria presa, se lançam umas contra as outras. Pode ser ainda comparado a um rádio ligado para várias estações. Em vez de ouvir claramente uma delas, recebe apenas um ruído estático intolerável.
Se a alma frustrada é educada, possui um verniz de desconexos pedaços de informação, sem a filosofia que os unifique. Por isso a alma frustrada pode dizer a si mesma: “Penso, às vezes, que há dois eus em mim: uma alma viva e um doutor em filosofia.” Tal homem projeta a sua própria confusão mental no mundo exterior e conclui que, visto não conhecer a verdade, ninguém pode conhecê-la. O seu próprio cepticismo (que ele torna universal numa filosofia da vida) o lança cada vez, mas para aquelas forças que rastejam nas escuras e húmidas cavernas do seu inconsciente. Muda de filosofia, como muda de roupa. Na segunda-feira, segue os trilhos do materialismo; na terça, lê um livro afamado, arranca os velhos trilhos e assenta os novos de um idealista; na quarta, a sua nova estrada é comunista; na quinta, são colocados os novos trilhos do liberalismo ; na sexta, ouve uma transmissão de rádio e decide viajar por vias freudianas; no sábado, toma uma demorada bebida para esquecer as suas viagens e, no domingo, fica a matutar na tolice das pessoas em ir à Igreja. Cada dia tem um novo ídolo, cada semana um novo capricho. A sua autoridade é a opinião pública. Quando esta muda, a sua alma frustrada muda com ela. Não há nenhum ideal fixo, nenhuma grande paixão, mas apenas uma fria indiferença pelo resto do mundo. Vivendo num estado contínuo de referência a si próprio, os “Eu” da sua conversa repetem-se com crescente frequência, ao achar que todos os seus semelhantes se tornam cada vez mais enfadonhos por insistirem em falar a respeito de si mesmos, em vez de falar a respeito dele.
ISOLAMENTO DO PRÓXIMO – Esta característica revela-se não só pelas duas guerras mundiais, num espaço de vinte e um anos, e pela constante ameaça de uma terceira; não só pelo aumento do conflito de classes e do egoísmo no qual cada homem procura apenas a sua satisfação; mas também pelo seu afastamento da tradição e da herança acumulada através de séculos. A revolta da criança moderna contra os seus pais é uma miniatura da revolta do mundo moderno contra a memória dos 1900 anos de cultura cristã e das grandes culturas hebraica, grega e romana que a precederam. Qualquer respeito por essa tradição é considerado “reacionário”, com o resultado da alma moderna ter desenvolvido uma mentalidade de comentador, que julga o ontem pelo hoje e o hoje pelo amanhã. Nada é mais trágico do que a perda da memória num indivíduo outrora sábio, e nada é mais trágico para uma civilização do que a perda da sua tradição. A alma moderna, que não pode viver consigo mesma, não pode viver com os seus semelhantes. Um homem que não está em paz consigo mesmo, não estará em paz com o seu irmão. As guerras mundiais não passam de sinais macrocósmicos das guerras psíquicas que se travam no íntimo das confundidas almas microcósmicas. Quando um homem deixa de ser útil para o seu próximo, começa a ser um peso para este. E ao negar-se a viver com outros não há mais que um passo a viver para outros. Quando Adão pecou, acusou Eva, e quando Caim assassinou Abel formulou a pergunta antisocial: “¿Sou por acaso guardião do meu irmão?” (Gén. 4, 9). Quando Pedro pecou, saíu só e chorou amargamente. O pecado de orgulho de Babel terminou numa confusão de línguas que tornou impossível a manutenção da convivência.
O nosso ódio por nós mesmos sempre se converte em ódio ao próximo. Talvez seja esta uma das razões da atração básica do comunismo, com a sua filosofia da luta de classes. O comunismo possui especial afinidade com as almas que já têm uma luta travada dentro de si mesmas. Associada a este conflito íntimo, existe uma tendência a tornar-se hipercrítico: as almas infelizes quase sempre censuram os outros, que não a si mesmas, pelas suas misérias. Encerradas em si mesmas, estão necessariamente fechadas para os outros, excepto para criticá-los. Como a essência do pecado é a oposição à vontade de Deus, segue-se que o pecado de um individuo é forçado a opor-se a qualquer outro indivíduo, cuja vontade esteja em harmonia com a vontade de Deus. O afastamento do próximo que daí resulta é intensificado, quando se começa a viver só para este mundo. Então os bens do vizinho são olhados como algo de injustamente arrebatado a si próprio. No momento que essa vlsão se torna o alvo da vida, nasce um conflito social. Como disse Shelley: “A acumulação de matéria da vida externa excede a quantidade de possibilidades para assimilá-la às leis internas da nossa natureza. ”
A matéria divide, assim como o espírito une. Divida-se uma maçã em quatro partes e sempre haverá possibilidade de uma questão para saber a quem deve caber a parte maior. Mas se quatro homens aprendem uma oração, nenhum deles priva o outro de possuí-la tornando-se a oração a base da unidade dos quatro. Quando o objetivo de uma civilização consiste, não na união com o Pai Celestial, mas na aquisição de coisas materiais, há um aumento nas potencialidades da inveja, da cobiça e de guerra. Os homens divididos, procuram então um ditador que os una, não na unidade do amor, mas na falsa unidade dos três Pês – Poder, Polícia e Política.
AFASTAMENTO DE DEUS. – A alienação de si mesmo e do próximo tem as suas raízes na separação de Deus. Uma vez perdido o eixo da roda, que é Deus, os raios, que são os homens, separam-se. Deus parece bastante distante do homem moderno. Isto deve-se, em grande parte, à sua própria conduta ímpia. A bondade sempre aparece como uma censura àqueles que não vivem corretamente, e esta censura, por parte do pecador, expressa-se em ódio e perseguição. Existe raramente uma alma dilacerada e frustrada, a criticar e a invejar o seu próximo, que não seja ao mesmo tempo um homem anti-religioso. O ateísmo organizado da hora presente é assim uma projeção do ódio a si mesmo. Nenhum homem odeia Deus sem que primeiro se odeie a si mesmo. A perseguição à religião é um sinal da indefensibilidade da atitude anti-religiosa ou ateia, pois pela violência do ódio espera escapar à irracionalidade da impiedade. A forma final desse ódio à religião é um desejo de desafiar Deus e manter a seu própria maldade perante a Sua Bondade e o Seu Poder. Revoltando-se contra a existência inteira tal alma pensa que a refutou; começa a admirar o seu próprio tormento, como um protesto contra a vida. Tal alma não quererá ouvir falar de religião, com medo de que o consolo se torne uma condenação da sua própria arrogância. Pelo contrário, desafia-a. Sempre incapaz de dar sentido à sua própria vida, universaliza a sua discórdia íntima e vê o mundo como uma espécie de caos em face do qual desenvolve a filosofia de “viver perigosamente”. Funciona como um átomo enloquecido num caos crescente, empobrecido pela sua riqueza, esvaziado pela sua plenitude, reduzido à monotonia pelas suas mesmas oportunidades de variedade.” [3]
Existe nos evangelhos semelhante alma confundida? Estará a psicologia moderna a estudar um tipo de homem diferente daquele que o Divino Mestre veio redimir? Se consultamos S. Marcos, acharemos exatamente as mesmas três frustrações da alma moderna.
Estava afastado de si mesmo, pois quando Nosso Senhor perguntou: “Qual é o teu nome? ” (São Marcos 5, 9), o jovem respondeu: “O meu nome é Legião, porque somos muitos” (São Marcos 5, 9) Notai o conflito de personalidade e a confusão entre “meu” e “somos muitos”. Está claro que ele é um problema para si mesmo, um reflexo atordoado por mil e uma ansiedades em conflito. Por isso chamou-se a si mesmo “Legião”. Nenhuma personalidade dividida é feliz. O Evangelho descreve esta infelicidade ao dizer que o jovem “gritava e feria-se com pedras.” (São Marcos 5, 5) O homem confundido está sempre triste. É o seu próprio pior inimigo, uma vez que utiliza indevidamente o intento da natureza para a sua própria destruição.
O jovem estava também separado dos seus semelhantes, pois o Evangelho assim o descreve: “E sempre de dia e de noite andava pelos sepulcros e pelos montes. ” (São Marcos 5,5) Era uma ameaça para os outros homens. “Pois tendo sido muitas vezes atado com grilhões e cadeias, tinha quebrado as cadeias; despedaçado os grilhões e ninguém podia dominá-lo. ” (São Marcos 5,4). O isolamento é uma qualidade peculiar da impiedade, cujo “habitat” natural é afastado dos outros homens, entre os túmulos, na região da morte. Não há aglutinação no peca do. A sua natureza é centrifuga, divisiva e dilacerativa.
Estava separado de Deus, pois quando viu o Divino Salvador, gritou: “Que tens tu comigo, Jesus Filho de Deus Altíssimo? Eu Te esconjuro por Deus que me não atormentes.” (São Marcos 5, 7). Quer isto dizer: “Que temos nós em comum? A tua presença é a minha destruição.” É um interessante facto psicológico o ódio das almas frustradas contra a divindade e o seu desejo de separar-se dela. Todos os pecadores se ocultam de Deus. O primeiro assassino disse: E eu me esconderei da Tua face e serei ocioso e fugitivo na terra.” (Gén. 4, 14).
Parece, afinal de contas, que a alma moderna não é assim tão moderna. Como o jovem de Gerasa, está afastada de si mesma, do seu próximo e do seu Deus. Mas há, não obstante, uma diferença: o jovem de Gerasa era pré-cristão, a alma moderna é pós-cristã. Embora seja fundamental a distinção, deixa ainda de pé o problema: Como tratar com o homem de hoje?
Uma coisa é certa: a alma moderna não conseguirá encontrar paz enquanto estiver encerrada em de si mesma, remoendo a escória e o sedimento do seu subconsciente, presa de forças inconscientes cuja natureza e existência glorifica. É interessante que Freud, que julgava tal solução de auto concentração a verdadeira, tenha tomado como epígrafe de um dos seus primeiros trabalhos, a frase: “Se não puder curvar os deuses lá do alto, alvoroçarei todo o inferno.” Mas não é essa a solução! Destronando os valores conscientes do mundo, lança-se, de facto, a confusão no inferno e acaba-se em neuroses ainda mais complicadas.
A verdadeira resposta é libertar o homem da sua prisão intima. Ficará louco se tiver de contentar-se em perseguir a cauda do seu própria mente, sendo ao mesmo tempo perseguidor e perseguido, lebre e lebréu. A paz da alma não pode provir do próprio homem, da mesma maneira que não pode ele erguer-se puxando as suas próprias orelhas. O auxilio deve vir de fora e não deve ser auxilio meramente humano, mas divino. Nada, fora de uma invasão divina que restaure o homem na realidade ética, pode tornar o homem feliz quando está só e na escuridão.
O desiludido jovem de Gerasa só ficou curado, quando Nosso Senhor o restaurou para si mesmo, para os seus concidadãos e para Deus. Então recuperou o objetivo da vida. Já não se chamava “Legião” e o Evangelho descreve-o “sentado, vestido e são do juízo.” (São Marcos 5, 15). Em vez de estar afastado da vida da comunidade, encontramo-lo devolvido à confraternidade por Nosso Senhor, “Vai para tua casa, para os teus.” (São Marcos 5, 19). Finalmente, em vez de odiar a Deus, nós vemos que ele começa a “publicar pela Decápole quão grandes coisas lhe tinha feito Jesus: e todos se admiravam.” (São Marcos 5, 20). O mesmo se dá com o homem de hoje. Se a alma moderna está demasiado acossada por temores e ansiedades para chegar a Deus, graças à beleza de uma estrela, poderá então chegar até Ele graças à solidão de um coração, dizendo com o Salmista: “Desde o mais profundo clamei a Ti, Senhor.” (Salmo 129). Se não pode encontrar Deus por meio do argumento do movimento, pode alcançá-lo por meio dos seus próprios desgostos, e mesmo até graças aos seus pecados.
A pergunta mais importante não é: “O que será de nós?”, mas “O que seremos nós?” A bomba atómica tirou-nos das mentes a existência e a sua finalidade. Contudo, é ainda hoje verdadeiro que não é tão importante saber como sair do tempo, quanto saber como se estará na eternidade. A bomba atómica nas mãos de um Francisco de Assis seria menos perigosa do que uma pistola na mão de um assassino. O que faz a bomba perigosa não é a energia que ela contém, mas o homem que a utiliza. Por conseguinte, é o homem moderno quem deve ser refeito. A menos que consiga parar as explosões dentro da sua própria mente, provavelmente – armado com a bomba – prejudicará o próprio planeta, como advertiu Pio XII. O homem moderno aferrolhou-se na prisão da sua própria mente e somente Deus pode pô-lo em liberdade, como fez Pedro sair da prisão. Tudo quanto o próprio homem deve fazer é contribuir com o desejo de libertar-se. Deus não faltará. Só o nosso desejo humano é fraco. Não há razão para desencorajamento. Foi o cordeiro balindo nas moitas, mais do que o rebanho nas tranquilas pastagens, que atraiu o coração e a mão auxiliadora do Salvador. Mas a recuperação da paz por meio da Sua graça, implica uma compreensão da ansiedade, a grave enfermidade do homem aprisionado.