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NOTAS
[1] —G. Jung; Modern Man in Search of a Soul, p. 23
[2] —Harry Slochower, No Voice is Wholly Lost, p. 316; Creative Age Press Inc. 1945.
[3] — Lewis Mumford, The Condition of Man, p.418, 1944
[4] — A ansiedade é um fenómeno tanto da consciência como da inconsciência. Uma ansiedade “inconsciente” pode significar duas coisas. Ou pode significar que a sede objetiva da ansiedade é desconhecida da consciência, em qual caso o estado emocional conscientemente experimentado se relaciona, por exemplo, por meio de uma “racionalização secundária”, com algum objeto fictício de uma maneira que parece sem fundamento e sem sentido ao indivíduo, mas que não obstante se impõe como uma força compulsória, como nas fobias , ou pode significar que o próprio estado emocional seja relegado para dentro do inconsciente e nele mantido, de modo que se torna manifesto, não como ansiedade, mas como algum outro “sintoma”. A ansiedade é também consciência e quando experimentada é um assunto de estudo psicológico, nas crianças e adultos, em gente normal e anormal.
[5] — Reinhold Niebuhr, The Nature and Destiny of Man, p. 181, Charles Scribner’s Sons, 1941
[6] — De Civitate Dei, Livro XIV, cap.3
[7] — Franz Warfel, Entre o Céu e a Terra, p.71, Hutchison & Company, Londres, 1947
[8] — Toda a teoria da situação de Edipo, ou complexo de Edipo, dá margem ás mais sérias objeções. A prova apresentada descansa exclusivamente em conclusões tiradas dos resultados da psicanálise. Se as pressuposições desta doutrina caírem, a teoria do complexo de Edipo perde os seus fundamentos. (É uma raciocínio falaz o que afirma que a existência do complexo de Edipo prova a verdade da doutrina freudiana, desde que esta prova pressupõe que a doutrina inteira seja primeiramente aceita.) Falta base real ao apoio á ideia de que a chamada ”situação de Edipo” é comum na vida humana a espelha acontecimentos verdadeiros passados nos primeiros estágios da civilização. Se fosse assim, como os psicanalistas pretendem, se o assassinio do pai ou do patriarca pelos filhos ciumentos e o casamento do assassino bem sucedido com a sua mãe fosse um acontecimento habitual na pré-história, seria esperar encontrar-se mito de Edipo em muitos lugares. Na verdade, porem, existe apenas na lenda grega e talvez de forma um tanto similar, em uma tribo da Índia. Toda a estrutura da sociedade pré-histórica e seus hábitos, que Freud e os seus discípulos exploraram, carecem de qualquer base firmada em factos e tem sido rejeitados por todos os estudiosos competentes da antropologia cultural. Para uma mais plena refutação dessa falácia, consultai Rubolf Allers, The Successful Error; Emil Ludwig. Doctor Freud, caps, 8-10.
[9] — A teoria do inconsciente coletivo tem sido proposta por C. G. Jung e forma uma das menos aceitáveis partes da sua “psicologia analítica”.
[10] — Os mais jovens psicanalistas vieram a verificar que no trato com uma pessoa humana tem que ser levada em conta mais alguma coisa que não só os instintos e as suas constelações. O mais ligeiro progresso no sentido de uma interpretação mais humana da natureza do homem é contrabalançada pela tendência de muitos psiquiatras em encarar os conflitos morais como nada mais do que sintomas e enxergar a sua cura, não com aceitação da lei moral, mas antes proclamando a sua relatividade ou negando-a totalmente. Afirmam que, se estes instintos entram em conflito com os preceitos morais, então estes são concebidos por esses psiquiatras, não como fórmulas de obrigações eternas, mas como resultados de situações sociais e históricas. Daí ter a lei moral de mudar quando essas condições se tornam diferentes. Os preceitos que tem estado em vigor não são mais proporcionais ao presente estado do homem. Por isso tornam-se fontes de conflitos. As velhas ideias, dizem eles, têm de ceder e ser substituídas por outras congeniais ao presente estado do homem. A psicologia está assim fazendo aquilo que os filósofos fizeram há uma geração atrás: encontrando homens que infringem a lei, mudam a lei par adaptá-la ao mau caminho que os homens seguem. Por trás dessa doutrina está a noção de que os conflitos são mórbidos e evitáveis, devendo ser prevenidos a qualquer custo. Esta noção é apenas fruto da mentalidade geral que estima o conforto e o prazer muito acima de qualquer outra coisa e sonha com uma vida suave e agradável com um mínimo de esforço e um máximo de prazer. É isto que Pitirim Sorokin chama de “liberdade dos sentidos”, a qual sustenta que um homem pode fazer aquilo que quer. Se os seus desejos são satisfeitos, é livre: se não, não é livre: “Tal liberdade leva a uma luta incessante de homens e de grupos na obtenção de tão larga parte de valores sensuais – riqueza, amor, prazer, conforto, liberdade sensorial, segurança – quanta se puder conseguir. Desde que alguém pode obtê-los, principalmente à custa de outrem, a busca desses valores acentua e intensifica a luta de indivíduos e grupos.” (The Crises of Our Age, p. 174).
[11] — Our Inner Conflicts, p.134
[12] — In Search Of Maturity, p.7
[13] — Modern Man in Search of a Soul, p. 264.
[14] — “The Kingdom Of God”, poems of Francis Thompson, ed rev, p.293
[15] — A. A. S., 25 de outubro de 1924.
[16] — Between Heaven and Earth, p.73, Hutchison & Company, 1947
[17] — Modern Woman, p. 396, Haper & Brothers
[18] — O nome “psicanálise” foi cunhado por Freud, que insistiu que fosse usado exclusivamente para a sua doutrina e seu método. Autores alemães, franceses e também italianos têm mais ou menos observado esta advertência. Alguns americanos, também, tentaram identificar freudismo e psicanálise, mas, em geral, nos países anglo-saxões, o nome de psicanálise é aplicado indiscriminadamente à outras espécies de tratamentos médicos e mentais. C. G. Jung, para indicar a diferença entre a sua teoria e a de Freud e, ao mesmo tempo, o que lhe devia, fala da sua própria doutrina como sendo uma psicologia analítica”. Adler chamou a sua concepção “psicologia inidividual”, uma teoria que depende mais ou menos da psicanálise, mas não obstante rejeita um dos seus dogmas fundamentais. Por causa da crescente crítica ao freudismo e à psicanálise, alguns psicanalistas estão usando o termo psiquiatria para evitar a crítica. Para pensar claramente sobre este assunto, pois, devem ser mantidas em mente estas três distinções: 1) Freudismo não é psicanálise, da mesma maneira que Rafael não é pintura; 2) Há outros sistemas de psicanálise que não só o freudista e alguns deles são muito mais completos; 3) A psicanálise é apenas um pequeno ramo da psiquiatria.
[19] — Sigmund Freud, The Futute of on Ilusion, p.50, Horace Liveriht, 1928
[20] — Ibid. Pg, 64
[21] — Sigmund Freud, Introductory Lectures on Psychoanalysis, trad
[22] — Suma Teológica, II-2, Q. 5, Art. 6
[23] — Talvez devesse ser mencionado que a noção do inconsciente, na forma que lhe é popurlamente dada, esteja sujeita a objeções. É díficil chegar a uma opinião final se ou não certo conteúdo é verdadeiramente inconsciente. O simples facto de alegar uma pessoa que o ignora não é suficiente, nem o é o outro facto, o de que este conteúdo venha à tona somente no correr duma longa e indagadora análise. A mente humana tem muitos jeitos de livrar-se de conteúdos que são percebidos como pertubadores, ou que poderiam conduzir a consequências desagradáveis se plenamente reconhecidos. A mente pode separar todas as ligações entre alguns dados e o resto da consciência, isolar certos dados ou impedi-los de apresentar-se porque são totalmente desconexos ou assim se tornaram para o resto do conteúdo consciente. Este problema não tem apenas interesse teorético, mas é também eminentemente prático. Aquilo que um homem afastou da sua consciência, porque não queria encará-la, tem uma relação muito mais importante para com a moralidade e a responsabilidade, do que conteúdos que foram relegados para o inconsciente numa idade primária, quando nem a compreensão nem a responsabilidade estavam desenvolvidas. Acontece durante a análise que o material alegadamente inconsciente venha à tona e o paciente o reconheça; pode mesmo dizer que, de certo modo, conhecera essas coisas sempre, mas tomara o cuidado de conservá-las fora do seu caminho. Em tal caso, há obviamente um grau de responsabilidade diferente do que existe, quando os factos inconscientes pertencem às experiências da primeira infância.
[24] — A despeito do jargão comum a respeito dos instintos humanos, deve ser relembrado que não há acordo entre neurofisiologistas, a respeito da existência e da eficácia dos instintos no homem, no seu estado maduro e normal. De acordo com K. Goldstein (The Organism, American Book Company, New York, 1939: Human Nature in the Light of Psychopathology, Havard Universityy Press, Cambridge, Mass., 1940), as manifestações puramente instintivas são vistas no homem apenas em consequência de uma derrocada do complexo inteiro. Normalmente, estiveram integradas em funções mais elevadas. De facto, dificilmente se encontra alguma reação em um adulto normal que pudesse ser rotulada “instintiva”. Um instinto nos animais caracteriza-se, de acordo, por ex., com Bierens van Haan (Die Instinkte), como: a) característica da espécie e não do indivíduo; b) imutável ou pelo menos mutável somente dentro dos mais estreitos limites; c) impossível de transformação em outros padrões de conduta; d) servindo a um fim útil, sem que o animal lhe conheça a finalidade. A isto, pode-se acrescentar que a conduta de complexo instintivo é uma realização indivisível, embora apareça ao observador como consistindo em ações parciais, uma seguindo a outra. Considerai a conduta da vespa da areia: cava um buraquinho na areia, voa à procura de uma lagarta, deposita a sua presa ao lado do buraco, paralisa-a por meio de uma picada bem aplicada, deposita os ovos ali, e fecha o buraco com alguns grãos de areia. Em qualquer fase em que esta ação seja interrompida, o animal a abandona para recomeçá-la de novo, desde a primeira fase. Em outras palavras, para a vespa não há sucessão de atos, mas apenas uma ação indivisível. Comparai isto com a chamada conduta “instintiva” no homem: qualquer ação pode ser interrompida a qualquer momento e retomada no mesmo degrau, tão logo as circunstâncias o permitam. Para o homem há uma verdadeira sucessão de atos parciais. Pareceria que no homem os instintos fossem apenas uma espécie de motivações, a satisfação deles apenas uma espécie de alvo a ser visado e não como se eles fossem determinantes absolutos da conduta. É por isso que quando se estuda a conduta humana deve-se fazê-lo acima do padrão puramente animal e concentrar-se sobre aquelas duas faculdades, intelecto e vontade, que separam o homem do animal. A análise da consciência é, portanto, a análise mais profunda que se possa fazer do homem.
[25] — O cérebro doente torna-se incapaz de comunicar-se com outros e de acordo com o grau em que isto ocorra, torna-se envolvido num excesso de subjetivismo. Há que distinguir entre o excessivo subjetivismo do psicopata (como existe na esquizofrenia) e o que exclui simplesmente o homem de comunicar-se e o encerra dentro de si mesmo. Esta forma mais branda existe em muitas formas de perturbações neuróticas. Mas mesmo nestes casos não pode ser afirmado com absoluta certeza que o subjetivismo é uma verdadeira causa da anormalidade mental. É concebível que um homem possa ser arrastado a tal atitude subjetivista pelo temor de alguma ameaça. Ele então ver-se-á em apuros para proteger-se, interessar-se-á por si mesmo e assim se tornará cada vez mais subjetivo na sua atitude. Observam-se tais reações em doenças corporais; a incerteza vital na qual o homem é lançado, quando verifica que o seu corpo se enfraquece, torna-o excessivamente interessado por si mesmo. Sem dúvida, não pode ser negado que tal reação não necessita ocorrer. Se um homem estivesse plenamente consciente da relativa insignificância da sua existência terrestre, em face de seu destino eterno, não se preocuparia tanto e, portanto, não sentiria dever interessar-se apenas por si mesmo. Mas a doença corporal pode enfraquecer tanto um homem que as suas melhores intenções e discernimentos se verifiquem ineficazes. Se uma pessoa cresce sob a impressão de que realmente ninguém se interessa por ela, que foi muito mal preparada para enfrentar os problemas da realidade, também ela se tornaria insolitamente interessada por si mesma; o seu subjetivismo, consequentemente seria mais um efeito do que uma causa da sua anomalia mental. A questão do subjetivismo como uma atitude pela qual a pessoa pode ser tornada responsável, apresenta-se somente depois que essa pessoa se tornou ciente da falta dum fundamento para a sua aproximação geral da realidade. É um objetivo de tratamento mental ou de reeducação que o neurótico seja capacitado a verificar o fictício de muitas coisas que ele teme e, portanto, a ver que a sua excessiva preocupação consigo mesmo é tão desnecessária como desviada.
[26] — 9. Os psicanalistas freudianos respondem que: 1) a consciência não realça, mas é antes o passivo campo de batalha onde o superego se torna vitorioso e consegue expelir o que não tolera; 2) recusa tolerar certas coisas, não porque sejam objetivamente más em qualquer sentido moral, mas porque são contrárias às convenções sociais existentes. Estas convenções são inculcadas na mente da criancinha; formam o superego, que, em virtude de “identificação”, adquire um domínio fatal sobre o ego e, portanto, sobre a consciência. A revolta é a tentativa doidpara reafirmar-se contra a tirania do superego. É no ego, e na consciência, que a batalha pela supremacia se trava.
A psicanálise pode admitir que há um ethos; mas este ethos, diz ela, será dependente e um produto da situação social existente. Quando a sociedade tomar outra forma, o código moral mudará correspondentemente. Nisso o freudismo corre paralelo com certas teorias sociológicas modernas, comopor ex. a de E. Durkheim e a sua escola. Durkheim reconheceu o papel e a existência de valores morais e religiosos; mas acreditava que eles derivam das estruturas sociais, cada uma das quais exige outro código de acordo com a sua natureza.
Recentemente, fizeram-se tentativas da parte de alguns freudistas, para integrar os seus padrões nos das morais reconhecidas. Edmundo Bergler declara na sua obra O Divórcio não Ajudará, que a monogamia é um estado natural, ou um estado que corresponde à natureza humana. O homem não pode deixar de ser basicamente monógamo e se sentirá melhor se se apegar à monogamia, por causa do complexo de Édipo.
Os anseios de Édipo, incestuosos de natureza, são recalcados; o superego conserva-os nos porões do inconsciente e, em vez dos anseios primordiais indeterminados e instintivos, o superego estabelece os aprovados pela moralidade, colocando qualquer desvio sob sanção. A mulher é a substituta da mãe e, portanto, insubstituível. Todos os caprichos extra-maritais são tentativas da parte do instinto recalcado para se reafirmar.
Neste raciocínio, dois pormenores merecem consideração. Primeiro, deve ser notado que a ideia de indulgência não inibida, como condutora a uma maior felicidade e um desenvolvimento mais pleno da personalidade, é aqui abandonada. A licenciosidade que tem sido encarada por alguns psicanalistas (não por Freud), como um meio de evitar os conflitos, já não é mais encorajada. Ou então os psicanalistas começando a verificar que há uma coisa tal como uma moralidade objetivamente válida e a tentar dar explicação disto ao seu próprio modo, ou descobriram que desprezar os preceitos morais, por uma razão ou outra, não dá em resultado uma vida feliz. Em segundo lugar, fazendo um ou outro, os psicanalistas parecem ignorar que contradizem os seus próprios princípios. Uma concepção perfeitamente subjetivista não tem lugar para qualquer espécie de moralidade objetiva. O subjetivismo deve ser relativista, por necessidade. Mas o complexo de Édipo não depende de alguma particular estrutura social ou forma de civilização. Tem de ocorrer em qualquer sociedade, primitiva ou adiantada, totalitária ou democrática, ateística ou religiosa. De acordo com a teoria psicanalítica este complexo é um defeito inevitável da natureza do homem, portanto anterior a todas as formas sociais. Se se assume esta posição, segue-se necessariamente que há algum princípio imutável e introcável de relações humanas. Tão logo é isto concedido, toda a noção da relatividade de valores, inclusive os éticos, se torna insustentável.
[27] — A religião é explicada por Freud de um modo similar: “A religião é uma neurose geral compulsiva como a de uma criança e deriva do complexo de Édipo, o parentesco do pai. E se o pecado original foi um pecado contra Deus, o Pai, o mais antigo crime deve ter sido o parricídio, o assassínio do primeiro pai da primitiva horda humana, cujo desenho memorativo foi subsequentemente transformado em Divindade.”
[28] — God and Evil, p. 210, Harper & Brothers.
[29] — Washington Institute of Medicine.
[30] — Samuel butler, Hudibras
[31] — William Shakespeare, Richard III.
[32] — John Milton, Paraíso Perdido
[33] — Alexander Pope, Essay on Man
[34] — A psicanálise freudiana acredita que certas ideias ou emoções são conduzidas ao inconsciente e “proibidas” pelo superego de se mostrarem. Toda a experiência penosa deve o seu caráter à frustração de algum anseio veemente instintivo, relegado ao inconsciente por ter sido posto sob sanção pela sociedade e pelo superego. Assim a psicanálise freudiana pode facilmente explicar que certas experiências (principalmente as que causam dor ou um sentimento de culpa) são reprimidas e conservadas fora da consciência pelo “censor”. Se, porém, não é aceito o sistema freudista (e neste ponto não ajuda), então torna-se discutível se os atos maus “esquecidos” são verdadeiramente inconscientes. Muitas pessoas admitirão que não ignoravam coisas que ostensivamente tinham esquecido. Talvez se devesse considerar outro mecanismo na mente além do da repressão. Há uma tendência no homem para desunir certos acontecimentos, lembranças e fases da vida do restante, o que é facilmente reproduzido na consciência. O homem desvia-se de algo que conhece tenta “esquecer-se disso” e depois de certo tempo torna-se aparentemente esquecido disso. Mas, na verdade, apenas adquiriu o hábito de evitar certos caminhos de pensamento, justamente como os que foram roubados podem banir todas as coisas que lhe recordem a perda. Sentem que melhor será para eles quanto menos oportunidades houver de ser recordado. Assim também a mente bane certos pormenores que poderiam, se despertados, levar a recordações em que não se quer pensar. Mas isto não é o que Freud concebe como o inconsciente.
[35] — Há outras formas de melancolia, por ex., a melancolia “sintomática” ou depressão, ocorrendo não poucas vezes nas doenças orgânicas mentais (processos senis, paresia progressiva, epilepsia): há também estados melancólicos dependendo de outros factores mentais, tais como a consciência da culpa, não sejam determinantes da melancolia, no sentido estritamente psicológico do termo.
[36] — Francis Thompson, “The Hound of Heaven.”
[37] — No primeiro período da psicanálise, quando as concepções teoréticas eram principalmente as de J. Breuer, desenvolveu este a idéia de que uma emoção a que foi negada adequada expressão ou descarga e que foi recalcada atuaria “como um corpo estranho”, incrustado nos tecidos do organismo, irritando-os localmente e, em consequência, causando perturbações também em partes mais distantes do corpo (Studien Uber Hysterie, por J. Breuer e S. Freud, Viena, 1893, trad. Por Brill, Studies in Hysteria).
[38] — William Shakespeare, A Megera Domada, Quarto Ato, Cena III.
[39] — O psiquiatra quer seja partidário de Freud ou de qualquer outra escola, não tem direito de fazerjuízo moral sobre as ações, motivos e atitudes que os seus clientes lhe relatam ou que lhes descobrenas mentes. Não tem direito de fazer assim, porque não é “ex-officio”, um juiz nunca tendo recebido tal mandato, quer da sociedade, quer de Deus. Embaraçaria mesmo o seu trabalho e tornaria os seus serviços ineficientes, se tivesse de condenar o que merece ser condenado do ângulomoral. Isso não significa, sem dúvida, que o psiquiatra não devesse ‘albergar opiniões bemdefinidas sobre o que é direito e o que é errado. Mas significa que têm de “pôr entre parênteses” estas opiniões, enquanto está ás voltas com o seu cliente, pelo menos durante a fase de exploraçãoe explicação. Pode ser discutível até que ponto é permitido chegar o psiquiatra, apontando o queé moralmente direito naquilo que se pode chamar de fase de exploração e explicação. Pode serdiscutível até que ponto é permitido chegar o psiquiatra, apontando o que é moralmente direitonaquilo que se pode chamar de fase da reeducação, Alfred Adier nunca hesitou em assumir talresponsabilidade. No seu padrão de moralidade nunca foi muito elevado, sendo principalmente oque quer que fosse socialmente útil, mas no aplicá-lo reconhecia o direito do próximo, o bemcomum, a necessidade de bondade natural como objetivos principais da existência humana.
A pessoa que busca auxílio junto ao psiquiatra considera-se “doente”. Quer uma cura e não umsermão. Olha como um sintoma o ter feito o que não devia fazer. Donde não haver sentido emdisser-lhe que ele peca. Ou ele sabe disto e “não pode deixar de fazer”, ou não o admite e éamedrontado, porque veio procurar o médico e não o moralista.
Às vezes a exploração da mente (sob a guia do psiquiatra, mas realmente executada pelaprópria pessoa) é uma condição necessária para que o paciente atinja uma verdadeiracompreensão de si mesmo e das suas motivações. Este esclarecimento pode ser realizado em muitoscasos, pelo que se chama hoje conselho “não diretivo” ou psicoterapia (C. Roger, Counseling andPsychotherapy, Boston, 1941) É integralmente verdade que muitos conselheiros tentam forçar sobre os seus clientes certas opiniões e princípios, sem cuidar de descobrir se a até que ponto podemestas coisas ser aceitas e tornar-se efetivas. Mas em muitos casos, a simples conversa da parte doconselheiro, ou da parte do cliente, conduzirá a uma clarificação gradualmente progressiva. Numapessoa familiarizada com os princípios de moralidade, tal descarga levará também a uma volta euma maior apreciação dos preceitos morais, dos valores religiosos e logo, num católico, áconfissão.
[40] — Science and the Idea of God, University of North Carolina Pres, 1944.
[41] — Freud reconheceu além da líbido outros instintos. São eles: os instintos do ego, como os chamou no começo (Ich-Triebe) e o instinto da morte. É verdade que o primeiro grupo desempenha papel subordinado na mente psicanalítico. E é também verdade que o instinto da morte é uma idéia um tanto obscura, não tendo sido aceitável mesmo para muitos dos partidários “ortodoxos” de Freud. Mas ainda há, dentro da moldura da psicologia freudiana, outros factores admitidos além dos do sexo. Se for dada particular ênfase a este último, isto se deve em parte à larga significação atribuída por Freud à libido ou ao sexo. Os instintos libidinosos são na verdade sexuais por natureza. Tudo quanto se possa tornar objeto da apetência é até certo ponto um objeto possível de desejo sexual. Talvez Freud tenha sido influenciado pela noção de que há nos seres vivos dois instintos básicos- que, no homem, a natureza persegue dois fins, a preservação do indivíduo e a da espécie. Os instintos do ego, na concepção primitiva de Freud corresponderiam ao instinto da autoconservação: a libido, ao da preservação da espécie. Mas os instintos primordiais não deveriam confundir-se com as necessidades sexuais ou com quaisquer experiências observadas no indivíduo maduro. Os factores sexuais que determinam perturbações mentais devem ser procurados, de acordo com Freud, na infância e na meninice. Nesta idade, supõem-se que eles se manifestam de maneira indisfarçável como incitações sexuais. Incitações que à primeira vista nada têm de comum como o sexo, tal como usualmente é ele entendido, são ainda rotuladas de sexuais, por causa da presunção geral de Freud de que a natureza de todas as excitações objetivo-direto são fundamentalmente da mesma espécie e que a natureza de todas elas é a da sexualidade. Aqui se observa carta inconsistência na doutrina. Uma das principais passagens nos Três Ensaios de Freud, em que pretende ele dar prova da existência da sexualidade na primeira infância, parece não estar de acordo com a concepção geral da líbido como objetivo-direto. Neste famoso trecho, afirma Freud que ninguém pode duvidar de ter diante de si mesmo a completa expressão da satisfação sexual, quando observa uma criança sugando, sorrindo de bochechas rosadas, caindo ressopro a dormir depois de largar o peito da mãe. O argumento é, sem dúvida, altamente falacioso. Implica asserções não provadas, tais como uma identidade de causas para explicar o que pode ser apenas uma vaga similaridade de expressão. Em vez de concluir que toda satisfação, quer de fome, de sexo, de poder, etc.. Produz expressões similares, conclui Freud que a própria satisfação deve ser a mesma (não só como experiência, mas também nas suas causas), porque a expressão é a mesma. Seu argumento parece-se com o seguinte: quando um homem toma fenobarbital, dorme; eis aqui um homem adormecido; logo, o tomou um soporífero. Muitos psiquiatras compreendem a líbido como sinônima de sexo no sentido ordinário e daí vêem o esforço em suprimir certas inibições como a essência da ética. A original significação de Freud não foi esta. Nem se segue tal idéia necessariamente das suas asserções básicas.
[42] — Psychiatry and Mental Helth, Charles Scribner’s Sons, New York, 1936
[43] — William Ernest Hocking, What Man Can Make of Man, Haper & Brothers, New York, 1942
[44] — Há alguns psiquiatras que acreditam que toda criminalidade é efeito de doença mental ou de uma inata condição anormal. Esta teoria, pensam alguns, partiu de César Lombroso, mas as suas raízes vão mais longe. Jean Jacques Rosseau afirmou que o homem nasceu naturalmente bom. Se vinha a torna-se mau, a culpa era da sociedade, pois no estado da natureza primitiva seria sempre bom. Nos dias de Rousseau, alguns filósofos ficaram cheios de entusiasmo pelo “bom selvagem”. Outros, como Condorcet, acreditavam menos na bondade original do que na infinita perfectibilidade do homem. A ideia de que há algo de intrinsecamente mal no homem, que era a noção luterana e noção errônea, tivera até então vasta popularidade. Rousseau revoltou-se contra esta doutrina. O mesmo fez os “liberais” do século XVIII e dos anos que se lhes seguiram. Kant ainda sustentava que o homem é “radicalmente mau”, mas afirmava O mesmo tempo que o homem é capaz de boa vontade, a qual chama ele de única bondade sobre a qual estão todos de acordo. Contudo, a influência da filosofia moral de Kant foi menor do que geralmente se afirma. Teve por certo pequeno efeito sobre o pensamento francês, o qual através da Revolução e de outros factores, determinou por muito tempo a mentalidade ocidental. Tendo sido elevado ao mais alto ser num sentido absoluto, não podia concederse naturalmente o homem como “radicalmente mau”. Mas havia mal; daí a necessidade de “eliminá-lo”. Isto podia ser feito declarando-se que todo malfeito é contrário à natureza profunda do homem e, portanto, o produto de anomalias. As ideias de Lombroso foram admitidas por algum tempo. Vem sendo revividas hoje, com outros termos. Criminalidade e imoralidade são agora consideradas como “desajustamentos.” A pessoa bemajustada comportar-se-á, graças ao seu esclarecido auto interesse”, de modo a reduzir os conflitos e desavenças a um mínimo, está mal ajustado e tem de ser reeducado ou “tratado”. Os psiquiatras que sustentam esta opinião consideram o desajustamento como o feito, quer de alguma deficiência inata (personalidade psicopáticas), quer de influência infelizes que atuaram no espirito da criança, de modo a pervertê-la e tornar o indivíduo incapaz de ajustamento.
[*] — Herói duma cantiga de embalar, em forma de adivinha, e cuja resposta é “ovo”. (N. do T.).
[45] — O Analista e o confessor, “Commonweal”, 23 de julho de 1948
[46] — Emil Ludwig, Dr. Freud, p. 166, Hellman, Williams & Company, New York, 1947.
[47] — The Condition of Man, p. 364, Harcours, Brace & Company, Inc., New York, 1944.
[48] — The Nature and Destiny of Man, Vol. I, p. 121. Charles Scribner’s Sons, New York.
[49] — Introdução, em Arthur Schopenhauer, O Pensamento Vivi de Schopenhauer, p. 28, New York, 1939.
[50] — Os antropologistas culturais mostraram que as concepções de Freud a respeito da história da civilzação são falsas e infundadas. O inventor da sua ideia favorita do “pensamento pré-lógico” (ou mentalidade arcaica), o falecido Lévy-Bruhl, escreveu uma completa retratação, somente há pouco publicada. Nos seus livros de notas (Carnets, in Revue Philosophique, 1947) declarou que não há tal coisa coma mente pré-lógico e que ele se havia inteiramente enganado interpretando os seus dados de tal maneira. Em segundo lugar, a noção de que a esquizofrenia é causada por factores mentais, operando de acordo com os mecanismos freudianos, está cambaleante. Esta ideia é particularmente cara a um grupo de freudistas. R. G. Hoskins (The Biology of Schizophrenia, New York, 1946) da Escola Médica de Harvard, acentuou o facto de que há tantas indicações de patologia orgânica nesta doença que uma origem puramente mental é improvável.
[51] — T. S. Eliot, Four Quarteis, N. 3, The Dry Salvages, V. p. 27 Harcourt, Brace & Company, Inc., New York, 1943
[52] — The Bow in the Clouds, Sheed & Ward, Inc., Londres, 1931.
[53] — Pierre Henri Simon, Marriage ande Society, in Body and Spirit, p. 112, Longmans, Green & Company, Inc. New York, 1939
[54] — Para uma exposição estritamente empírica das profundas diferenças entre animal e homem, especialmente no que diz respeito aos instintos, ver K. Goldstein. The Organism, New York, 1939, e HumanNature in the Light of Psychopathology (William James Lectures), Cambridge, Mass., 1940. O erro naturalístico de confundir o amor com a necessidade sexual foi fortemente criticado por M. Scheler, Wesen und Formen Der Sympathiegefuhle. Bonn, 1922, Scheler mostrou que identificar todas as espécies de amor com a do sexo, só é possível se as diferenças fenomenológicas forem totalmente desprezadas (tais como as de amor paternal, filial, sexual, etc.). Em certo sentido, todo p amor é um, até onde é dirigido para uma pessoa; sempre significa transferência na própria pessoa para a da pessoa amada; non quaerit quae sua sunt. Dentro desta moldura, porém, há grandes diferenças e não há possibilidade de “derivar” todas as formas de amor pessoal do amor sexual, e ainda menos de uma apetência sexual meramente biológica. De acordo com as doutrinas psicanalíticas, a sexualidade fornece o exemplar ou modelo pelo qual se molda toda conduta e de modo especial a do amor. A sexualidade, porém, não é um exemplar, mas a expressão das atitudes básicas de uma pessoa.
[55] — The Destiny of Man, p. 170, Charles Scriber’s Sons, New York, 1937.
[56] — G. Walter Stonler, Psycho-Analisys.G. K.’s Weekly. P. 74. 10 de abril de 1926.
[57] — Há uma falsa ‘’pureza” corrente entre os pudicos, que quer ficar livre de todo contato com o sexo exceto quando podem descobrir tal pecado em outrem. “Fico tão contente por ver que não há palavras impuras no seu dicionário! ”, observou uma dama ao Dr. Samuel Johnson. “Como sabe disto a senhora? Andou procurando-as? ” Foi a mordente réplica do doutor. É tal gente que cria a impressão de que a religião condena e despreza tudo quanto se relacione com o sexo. Nos tempos primitivos, a Igreja falava mesmo mais livremente deste assunto que agora. S. Bernardino de Siena não hesitava em falar bem rudemente em 1429, mas a atitude mudou depois da Reforma.
[58] — Franz Werfel, Between Heaven and Earth, p. 121, Hutchinson & Company Ltd, Londres
[59] — W.F Lofthouse, The Family and the state, p. 141, Epworth Press, Londres, 1944
[60] — Tratamento profundo do assunto pode ser encontrado em M.C D’arcy, The Mind and Heath of Love, Faber and Faber, Ltd Londres 1946.
[61] — Decadense, p. 213. Faber & Faber Ltd., Londres 1949
[62] — L. S. Thornton, Conduct and the Supernatural, p. 289, Longmans, Green & Company, Inc., 1915.
[63] — Ends and Means, p. 4. Harper & Brothers 1937.
[64] — Richard Weaver, Ideas Have Consequences, p. 116, University of Chigago Press, 1948
[65] — Sex, Life e Faith, p.305
[66] — Spiritual Letters
[67] — Um estudo da confissão bastante interessante e agradável de se ler pode ser encontrado em Pardon and Peace, de Alfred Wilson, C. P. (Sheed and Ward, Inc., Londres. 1947). Uma apreciação doutrinal é dada por John Carmel Hienan no seu Priest and Penitent (Sheed and Ward, Inc., Londres, 1938).
[68] — Alfred Wilson, C. P. Pardon and Peace, p. 209, (Sheed and Ward, Inc., Londres, 1947)
[69] — Conversions, editado por Maurice Leahy, pp. 68, 69, Benzinger Bros., 1933.